Festival de Inverno de Garanhuns (PE) #registros

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Algumas imagens das peças “Réquiem para um rapaz triste” e “Bicha Oca” clicadas durante a passagem das peças pela 27° Festival de Inverno de Garanhuns (PE). Não sei o/a responsável por elas, mas fica aqui meu agradecimento público. #grato

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+ imagens no link:

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Literatura na cena – Festival de Inverno de Garanhuns (PE) – FIG

“Bicha Oca” e “Réquiem para um rapaz triste” foram apresentados na 27° edição do evento, ou seja, dia 21 de agosto de 2017. No mesmo dia, participei de uma conversa sobre a relação da literatura com as artes cênicas. Tudo muito bom e produtivo. Abaixo a reprodução de uma matéria escrita por Lenne Ferreira, publicada no portal de cultura do estado pernambucano 🙂

‘Literatura na Cena’ reúne atores e dramaturgos no FIG

Projeto estreou no FIG 2017 debatendo a integração entre Literatura e Artes Cênicas. Programação segue hoje com conversa sobre a obra de Cervantes

Fragmentos de textos de Caio Fernando Abreu e suas personagens femininas inspiram a produção do ator Rodrigo Lima

Cada trago que Alice dá no cigarro tira o fôlego da plateia. A personagem, interpretada pelo ator Rodolfo Lima em “Réquiem para um rapaz triste”, fala de dor e delícia, morte e vida, amor, gira na contramão da roda da existência normativa e transmuta angústia em resiliência.  Mas não uma resiliência passiva. Alice é reação pura. Crua. Sem subterfúgios nem arrodeios assim como os fragmentos dos textos do escritor Caio Fernando Abreu, que fundamentaram a peça apresentada na 1ª edição do Literatura em Cena. O projeto estreou na noite deste sábado (22) e segue com sua programação hoje, na Galeria Galpão, no 27ª Festival de Inverno de Garanhuns.

A palavra em movimento. Literatura encenada. Expressada em gestos e silêncios. O Literatura na Cena, que conta com a curadoria de José Neto, assessor de Teatro e Ópera, e Mariane Bigio, da Coordenadora de Literatura, ambos da Secult-PE, nasce com a proposta de debater sobre a construção dramatúrgica a partir da literatura. E foi sobre os processos de construção de “Alice” e de “Seu Alceu”, outro personagem interpretado por Rodolfo no monólogo “Bicha Oca”, inspirado em contos homoeróticos do autor pernambucano Marcelino Freire, que girou a conversa inédita mediada pelo ator e diretor Breno Fittipaldi – antes das apresentações das duas peças.

Durante o bate-papo, Rodolfo falou sobre a relação do seu trabalho com as letras e de sua própria história com os personagens que dá vida. Fundador do Teatro do Indivíduo, o ator revelou os percursos que percorreu para formatar mais do que a narração de um texto, mas digerir e transmutar aquilo que a palavra escrita nem sempre diz. “Eu admiro muito o ofício do ator. É ir ao inferno sem concessões e trazer notícias de lá. Rodolfo lê nas entrelinhas, sai da superficialidade e mergulha fundo”,observou Marcelino Freire. “Não é uma questão de dar voz a quem não tem voz porque todos têm vozes. É ouvir”, completou o autor, inspiração recorrente no trabalho do ator paulista que há 15 anos usa o palco como confessionário.

O escritor Marcelino Freire e o ator Rodrigo Lima bateram um papo com a mediação do diretor Breno Fittipaldi

A conversa também contou com a participação da plateia, que fez questionamentos e apontamentos sobre os processos criativos do autor e ator, fomentando um intenso debate sobre os caminhos que cruzam Literatura e Arte Cênica. “O lugar da arte no contemporânea é um lugar que ultrapassa as barreiras e as definições. É um lugar que ultrapassa os rótulos e muito mais fala do ser humano e do humano”, opina o curador e assessor de Teatro e Ópera da Secult-PE, José Neto.

É justamente o lado mais humano, em toda sua vulnerabilidade, paixão, crença e descrença, que assistimos Rodolfo se despir diante de nós seja em “Réquiem …” ou “Bicha Oca”. “Eu só queria nascer feliz”, diz a personagem Alice. Chora Alice. Traga Alice. Transforma angústia em reflexão. Essa mulher de meia idade, que narra seus amores e dissabores, entre um cigarro e outro, entre uma gargalhada e outra, questiona a normatividade, o senso comum do que é felicidade, a pateticidade dos que giram e fazem girar a roda do individualismo capitalista inertes às paixões, desejos e experiências libertárias. Alice tece a sua própria roda com fios de uma história que já se deparou com muitos “nãos”, mas não lhe tira a busca por “sims”. Que mulher.

Bicha Oca é um monólogo criado a partir de contos homoeróticos do escritor pernambucano Marcelino Freire

Em “Bicha Oca”, texto inspirado nos contos de Marcelino, que fez questão de assistir à encenação, Rodolfo nos apresenta às relações homoafetivas vividas por Seu Alceu, um homem ora louco, ora tão consciente de si que a insanidade parece a única salvação. O amor por um certo “Edvaldo”, encarnado pelo ator Alexandre Acquiste, serve de mote para injetar na plateia temas relacionados com liberdade e sexualidade, solidão e submissão. É um passeio pela nostalgia melancólica de alguém desde a infância predestinado ao luto de viver camuflado. Rodolfo liberta Seu Alceu. Não lhe dá voz, lhe dá ouvidos.

Nas duas peças, o ator, a partir das obras de dois escritores transgressores, bate forte. Sem dó. É que ele, na sua dedicada busca por dizer o indizível, “traz notícias do inferno”. Mas traz também notícias de si, de sua formação, das suas frustrações e anseios. Não é só sobre a obra de Caio Fernando Abreu nem Marcelino Freire, é sobre si que ele também fala. Sobre os seus afetos e percursos. É sobre Patrick, seu sobrinho de 16 anos, que um dia sonhou dançar balé. Um sonho minado pelo preconceito fundamentado numa heteronormatividade que beira à morbidez. Alice, Seu Alceu, Edvaldo, Patrick, Caio e Marcelino. Rodolfo se transveste de todos eles e outros (as) mais em cena. “Meu coração está cansado de maquiagem”. O nosso também.

Publicado dia 23 de julho de 2017

Link original: http://www.cultura.pe.gov.br/canal/fig2017/literatura-na-cena-reune-atores-e-dramaturgos-no-fig/

 

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Ah… se eu acreditasse no amor

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Gostaria de saber aonde vai parar nossa crença no amor, quando simplesmente a abandonamos no meio do caminho. Gostaria de saber qual é o momento que simplesmente abrimos mão de acreditar nessa epifania, que é ter o outro em sua vida. Se estamos ciente do ato, ou simplesmente abandonamos como somos abandonados. Ter tal resposta talvez não seja a solução, já que o melhor seria não pensar. E como parar de?

Se eu acreditasse no amor, poderia crer em você. No que você desperta e reacende. Essa vaga lembrança de uma promessa. Uma vaga e ilusória promessa. Essa chama traiçoeira é minha amiga, não a desprezo, não tenho medo e nem atração. É como se eu observasse de soslaio – e respiro aliviado por isso – e debochasse internamente, ciente dos perigos dela.

Nesse revirar de sentimentos que é ter por perto o que te preenche mas não te toca, e nem te pertence, um vácuo permanece cheio de nãos. É como se fosse impossível acreditar de novo que esse buraco fosse nutrido de possibilidades. Foram tantas implosões nesse local que me pergunto: como salvar de tal falácia? É isso, meu coração é um equivoco. Tadinho.

Se sentir feliz por respirar perto do outro, poder contar com a atenção alheia, sofrer pelo distanciamento, são tudo miríades a deturpar a realidade. E convenhamos, depois de uma certa idade, não cair nesses bueiros sentimentais é uma dádiva. Uma benção. Assim como deve ser a benção das sujeiras que se pode trocar em comunhão com o outro. E quando se vive das rejeições alheias, como se deve viver?

Se eu acreditasse no amor, sua pele faria sentido, bem como sua boca e seu toque ligeiro e atrapalhado. Se eu acreditasse… ah… acharia que seus líquidos eram para mim, que sua esperança era minha, e que a necessidade de errar juntos teria meu sobrenome. Nada somos além do que uma lembrança distorcida e morna, do que poderia ter sido e não foi. Não acreditar no amor me salvou de ver graça do seu hálito agridoce. Fui salvo pela descrença. Pela estupidez da desesperança.

Nunca sabemos os atalhos que a vida nos oferece e nos sustos que a vida nos prega. Estar diante de você é como se assustar e não se abalar. Como se algo dentro de mim risse, mesmo que eu por fora não esboce nenhuma reação. Ou na dúvida desesperada de não saber o que fazer com você por perto, calasse a ironia das certezas e me deixasse levar, falsamente pela sua presença momentânea.

Os instantes… me preenchi deles e talvez eles devam me bastam. Não poder mais esbarrar em seu corpo descredenciado da minha pessoa, descrente da minha possibilidade, é um alivio e uma saudade tolinha. Daquelas que desobedecem a rotina da vida e ousa olhar para trás, para sofrer um pouco mais, só um pouquinho mais… sempre a necessidade desse tiquinho… de mais.

Se eu acreditasse no amor, teria pedido para você: fica. Se eu acreditasse no amor teria te maltratado só para te testar e te provocar. Reagir bobamente só demonstra que nada sei sobre ele e você, sobre vocês. Essa oportunidade desperdiçada. Que devo largar na próxima esquina, que assim como os outros, me esqueceu a mínguas.

Me leve de volta pra casa. Eu quero voltar para você. Eu estou sentindo que me deixaram sozinho com meu pecados. E gostaria de poder simplesmente ligar para você novamente. Eu não estou apaixonado por você, mas poderia estar… Apenas me leve para casa, me leve” – Kristen Marie (City)

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Alexandre Acquiste

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Não me lembro de como nos aproximamos, minha primeira memória dele, era que ensaiávamos uma cena, na extinta CADOPO – Casa do Politécnico, onde ele se sentia constrangido de ficar de cueca na minha frente e supostamente para o público. A cena não vingou. Não me lembro o motivo. Mas esse 1 ano e meio de convívio com o Acquiste – sempre o chamei pelo sobrenome – e com o Projeto Bazar, grupo que pesquisou a intersecção entre teatro e literatura, coordenado por mim e Aurea Karpor, originou a montagem de “Sexo Verbal“, que estrearia com o restinho de nossas forças (junto com Mariana Galeno e Silvana da Costa Alves) no final de 2008.

Na cozinha do Casarão do Belvedere eu e Acquiste dividiríamos uma cena que rapidamente virou a preferida do público que, circulava pela casa e acompanhava as cenas pelos cômodos. Na cozinha, eu e ele, sentados frente a frente na mesa e desde de sempre segurar o riso foi uma dificuldade para ambos – se bobearmos ainda é. Acquiste  dava conta de um texto de Caio Fernando Abreu (Terça-Feira Gorda) e eu um do Marcelino Freire (A volta da Carmem Miranda), começou ai sem que eu soubesse a minha relação com Freire, que originaria a peça Bicha Oca e faria do Acquiste uma chave elementar e inesperada nessa história.

Então, em 2008, chamei Marcelino Freire para ver a peça e aprovar minha leitura para seu conto. Então foi nesse ano que o autor, não só aprovou como me incentivou dizendo que havia curtido a forma como havia dito seu texto. E quando arrisquei: – sou louco para montar uma peça só com seus textos. Ele respondeu: – Meus textos são seus a hora que você quiser. #bingo

Na primeira adaptação da peça, não havia a figura do segundo ator, que dá corpo, voz e alma as memórias de Seu Alceu. Mas, ao dar o microconto inédito para fechar a peça, Marcelino palpitou: – Acho que podia ser aquele ator que faz a cena contigo.

Acquiste não topou.

A peça estreou, Acquiste teve certeza de que não teria coragem. Mas naquela época o personagem em questão era apenas uma figura etérea e intocável. Acquiste esteve na plateia da estreia. Acompanhou tudo de longe e longe ficamos por bons longos anos. Seu retorno foi uma surpresa.

A participação de Acquiste hoje na Bicha Oca é muito curiosa. Pois além de ter sido a primeira sugestão do autor, traz um outro, no corpo do mesmo de ontem. Ele não era grisalho e não tem complacente. Não tinha sido bagunçado pela vida a contento, a ponto de se acalmar internamente. Sem querer querendo, quando vi, Acquiste tinha voltado. Para mim e para o Seu Alceu – mesmo que esse nunca o tenha almejado. Como ele mesmo diz: “A vida é cheia de voltas desconfortáveis

Alexandre hoje não se acovardou diante do desafio que é faz par comigo na peça Bicha Oca. Aceitou meio que sem saber ao certo onde “tudo isso daria”, se acanhou de inicio, mas pegou fôlego durante as apresentações. Alexandre usou sua inquietação para fomentar o material que podia nutri-lo como ator e foi para a briga. Não teve medo, parece não ter medo.

Sabemos o quão é perigoso tudo. E Alexandre silenciosamente acompanha rindo, ora de deboche, ora de cumplicidade, como é de praxe da sua personalidade. É/foi uma surpresa esse “andar da carruagem”. Então o que tenho agora é um ator a ser despido em suas camadas mais profundas e que diante do desafio não “empacou”, se jogou e confiou em mim. Éramos de novo, os mesmos parceiros de cena de 9 anos atrás. Com um adendo: não havia entraves para a entrega.

Com ele, a peça ganhou uma frase que não tinha: O diabo não te reconheceria, eu sim!!! É da música “Devil Wouldn’t recognize you“, de Madonna, que amamos desde de sempre e sempre desejamos inclui-la em algo que fazemos. Quase que virou tema da peça, na versão com ele, talvez indiretamente seja 😉

“Numa noite tranquila como esta, Você quase pensa que está salvo. Seus olhos estão cheios de surpresas. Eles não podem prever a minha sorte. Você não pode mentir pra mim através do seu sorriso. Você esconde sua tristeza por trás do seu sorriso, e continua perdido com suas mágoas. Eu brinco com sua fantasia. Nem o diabo reconheceria você. Eu sim” – Madonna

Acquiste portanto segue comigo e com Seu Alceu, de forma que ainda não apreendemos com clareza. Porém, o mais importante disso tudo é sua entrega e a verossimilhança com que contribuiu para o trabalho. Grato desde já pela sua entrega, pela confiança, paciência e claro, por não ter desistido no caminho.

#boasorte #tamojunto

Bicha Oca, até 26/06

toda as segundas, 20h, na rua barra funda, 391 (Mora Mundo)

R$30 – 18 anos – 60 minutos

Obs: as últimas apresentações de Acquiste nessa temporada são dias 05 e 19/06

 

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Da última vez que vi seus olhos

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Lembro bem da última vez que te vi. Tive uma leve sensação de que naquele momento seus olhos não se deitavam sobre mim me julgando. Você apenas observou. Tinha algo no seu olhar que havia zerado toda a sua rejeição a minha pessoa. Eram momentos como esses que me faziam supor que poderíamos ter mais momentos de cumplicidade do que de inimizades, quando feridos, agredíamos. Armávamos igual a carapuça, e não sabíamos quem caia nela primeiro, pois ambos se viam enredados em lugares que não havia desejado.

Lembro que me passou pela cabeça: olha bem para ele Rodolfo, pois você não sabe se poderá vê-los novamente. É, não pude. Se o seu olhar era uma das coisas que eu mais gostava em você, fui apartado dessa possibilidade de apreciá-lo, mesmo que a distância, de soslaio, sofrendo por vezes vendo onde seu olhar pousava. As vezes só vagava e acho que de certa forma, tinha inveja do que fazia seu olhar passear. Queria ter sido o seu passeio.

Lembro das vezes que você me olhava com aquela malicia de saber que eu estava mentindo, ou de que a minha ironia não ia te fazer responder. Aquele olhar que repetia – mesmo sem soltar uma palavra – não vou entrar no seu jogo Rodolfo, não vou dar resposta que você quer. Ah, como eu gostava desse jogo emblemático entre o não dito e o desejado. O “boom” das relações está nesse entreato que perfaz os dois pólos/corpos que são como pontes moveis que se ligam e se desligam com a facilidade do trânsito de informações.

Lembro que atracava meu navio no caos/você. Meus olhos eram ancoras que jogava aos seus pés, aterrando ali, minhas ilusões tolas e desesperançadas, mas que se faziam vivas e retumbantes no confronto dos seus nãos. Não posso nem mais empilhá-los. Seria uma forma de te fazer presente, mesmo me desprezando.

Lembro que por mais que eu desejasse olhar – muito mais do que tocar – você. Eu disciplinadamente o ignorava, pois assim era mais fácil não estampar meu afeto. Nunca quis fazer dele bandeira. Mas hoje percebo, que empunhá-la era a única coisa que eu podia fazer para validar meus sentimentos. E se não para você, para mim mesmo, como que a me contemplar com a capacidade de me reinventar, mesmo quando o outro já desistiu de você.

Lembro que por mais que suas palavras me jogasse para longe de ti, era no abismo do seu olho que eu me identificava. Era como se ali eu achasse uma ponte – incompreensível – de comunicação. As vezes eu te abraçava e achava que sim, nos entendiamos melhor do que quando jogávamos nossas opiniões um na cara do outro, como forma de aprisionar nossas “certezas”. Por vezes eu te olhava e queria ficar assim… no parado, só te olhando.

Da última vez que vi seu olhar, pensei que nunca mais te veria. E nunca mais te vi. Nem para criar atritos nossos olhares se encontraram, nem por trás dos óculos eles brigaram para ver quem era o mais magoado.

Queria poder vê-los agora. Não para alimentar nada. Apenas para poder observar com saudades um lugar que almejei morar um dia e que mesmo sem ter a noção exata do que isso significava, insistiu. Desculpe. Parafraseando Cazuza: eu só soube insistir. Gosto de pensar que se nós olhássemos agora, nós sentiríamos um pouco acolhidos um no outro. Nessa loucura que foi/é saber dessa dubiedade do encontro de nossas singularidades.

Seu olhar está preenchido agora? Vago? Solitário? Cansado? Perdido? Medroso? Se eu pudesse te olhar agora eu te ligaria. Se em vez da sua voz, da forma rude como botava pra fora meu nome. Se em vez de ser agredido pela sua boca eu pudesse ser fuzilado pelo seu olhar, eu o desejaria agora.  Simples e mortal assim. Para quem sabe renascer amanhã, com menos saudades de poder contemplá-lo.

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Do fim que você não me salvou

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Naquele lugar inóspito e impessoal eu não lembrei de você. Não porque não pense em você sempre – ainda cometo essa gafe – é porque havia tantos corpos e tanto a fazer que procurei não questionar e agir. A ação é sempre melhor que as intenções, e de que adiantaria tê-lo no meu coração e no meu imaginário se ali você não estaria para me tirar daquela situação. Refém dela, aproveitei. Sei que não foi a melhor opção, mas acho que perdi o “traquejo” de discernir o que é melhor para mim. Sua ausência esburacou essa possibilidade. Vago. Talvez um dia encontre sentido.

Do fim que você não me salvou não é fácil escapar. É como se minha alma, descompassada e contaminada pelos vícios de outrora, cedesse. E voltasse a falhar. Num ciclo vicioso e interminável. Sua ausência me trouxe essa constatação do meu desconsolo diário. Sem você, ficar a mercê é rotina.

Você não me roubou dos palcos e nem da platéia. Não foi protagonista da situação e me condenou a ser coadjuvante numa fantasia. O amor é isso no final, uma mal acabada ilusão num período. Como se recuperar do desamor? Ajoelhando para outro? Quantos outros entram dentro de nós para que possamos renascer?

Perdi a noção dessa minha contagem mórbida e invulgar. Insolente e cruel. Assim como será supor você amanhã. Esse momento é sempre complexo, principalmente quando fecho o olho para receber outra boca que não a sua em meu corpo. E é quando me sugam e tentam me engolir que mais me aflinjo e cedo. Pois abaixar a guardar é uma forma de se socorrer no outro. Vai que ele me atinge em cheio e…

Naquele lugar sombreado e cheio de gente, eu procurei focar no que estava ali, a um palmo de distância. Talvez fosse minha forma de lidar com a frustração de não poder te supor tão perto de mim. Porque nunca me devolveu essa possibilidade?

Se aquele lugar me trouxesse pelo menos a ilusão da sua pessoa, acho que não me importaria com tantos estranhos. Mas é ao contrário, é no outro que visualizo o poço no qual cai e não é possível visualizar sua mão. Como estará suas mãos? O que/quem ela segura? Com que intensidade? Penso e me machuco. Suponho e me maltrato. O amor não correspondido é um poço sem fim. Sonho com a linha de chegada.

Estou condenado, sabia? E não dá forma como você achou que me condenaria, não que eu saiba. Mas, estar falível nessa inquietude constante é uma espécie de sina mórbida e solitária. O amor poderia ter me salvado. Não o meu para você, mas a concretização do seu para mim, simples assim. Banal assim, como de novela, num filme B, nos sonhos de qualquer um.

Nas mãos de qualquer um eu só sonho com você.

 

 

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No colo do outro, o afago que você negou

 

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Disse na aula de teatro que havia sonhado contigo. Se interessaram por você, pela situação, pelo desarranjo que nós uniu e nos separou. Alguém se interessou pelo que não fomos. Achei bonito. Uma espécie de cumplicidade estranha. Afinal, o ator que escolheu eu mal conheço. Se ele conhecesse você, teria escolhido o sonho assim mesmo?

O sonho era simples, mas foi perturbador. Nele estávamos sentados lado a lado, numa calçada no meio de uma rua sem saída, uma vila onde havia várias casas, morávamos em casas separadas. Lado a lado era como que se pudêssemos nos evitar por inteiro, mas o alinhamento no qual estávamos sentados, nos revelava. Poderíamos estar incomodados um com o outro, mas permanecíamos ali. A nos observar, de lado, sem querer querendo. É assim ainda? A distância ainda não apagou tudo?

No sonho você cantava uma música que falava de saudade, eu não lembro do que fazia. talvez porque assim como na vida real, no sonho eu pensei muito mais em você do que em mim em alguns momentos. Eu te olhava, você se incomodava, parecia temeroso. Não, eu não queria te criticar. Só te olhar nos olhos, te observar. Lembra como elogiava seus olhos? Acho que não… Mas fazer isso – te olhar – também foi um ponto inflamatório no que chamo de “nossa” história. Sei que é um erro esse “nossa”, desculpe.

No exercício de improvisação, o ator sugeriu, deite no meu colo Rodolfo, vou cantar uma canção sobre saudades para você, me chamou a atenção sua história.

E assim foi feito. Enquanto eu simulava um sonho perturbador e os outros atores simulavam o meu sonho, eu era acarinhado na cabeça, com os dedos do outro entre os meus cabelos. Como se na ficção eu pudesse ter minha aflição do desamor sanada. Achei poético aquele ator, supostamente heterossexual, propor uma cena tão delicada e singela, uma retratação do meu destempero amoroso. Como diria Carpinejar: não estamos preparados para o afeto alheio.

Isso não muda?

Passar a mão pela minha cabeça… isso nunca lhe ocorreu. Afinal eu sou careca e você detestava. É a metáfora da velhice, de uma falta de vaidade, da ausência de cuidado, no seu entender e tudo isso: velhice+falta-de-vaidade+descuido, está longe do seu que sonha como ideal. Mas é que eu nunca achei que isso fosse tão importante. O corpo responde ao tempo, tem beleza nisso. Pena que você ainda não aprendeu a ver poesia nisso. Ou se aprendeu, não dividiu comigo.

Cabelos, são meu fraco. Talvez por não poder tê-los a contento, vivo a admirar o dos outros. E como eu gostava do seu… inclusive de passar as mãos. Eu queria ceder a energia, que eu supunha boa –  e você via como má – que podia vazar do meu afeto, para isso que podia ser uma parte boa de você, uma ponte de comunicação sútil e despretensiosa contigo. Não, isso também se desfez com o tempo… não me lembro quando isso não pôde mais ocorrer. Se juntou aos amontoados de nãos.

Na hora da cena, foi tudo rápido e não me trouxe você no instante. Mas depois fiquei a digerir o ocorrido. No colo do outro, o afago que você negou. Pois mesmo nos piores momentos, você nunca se prontificou a um gesto físico de carinho. Não sai sofrendo da aula, apenas pensativo.

Na minha “careca” dedos estranhos, “heteros” (que ridículo dizer isso), solitários como meus sonhos, parceiro de minha confusões noturnas. Achei poético, inesperado. Uma epifania.

 

 

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