Flores Raras

Ao término do filme sobre Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, eu sai do cinema mudo. Já conhecia parte da história, pois havia me aventurado um pouco sobre livro de Michael Sledge “A Arte de Perder”. O titulo que dá nome ao famoso poema de Elizabeth é o que eu me peguei pensando: que arte pode haver na perda? Levando-se em conta que algumas perdas são irreparáveis. Ou inconsoláveis – o filme “Elena” de Petra Costa – termo que serve a partir do referido filme para denominar o que não conseguimos apreender no campo da saudade.

Há muitos estudos sobre a falta, sua origem, como saná-la, como se resolver, como viver a partir de. “Flores Raras” é um desses filmes de como (sobre) viver a partir do que te falta. Sinceramente, Lota não sobreviveu a ausência de Elizabeth. Não conseguiu entender quando a outra precisou respirar longe do universo que a arquiteta havia construído para ela. Algumas pessoas quando gostam são assim: autoritárias, centralizadoras, controladoras…

O encontro de Elizabeth e Lota é um encontro de almas. Um encontro onde as partes se complementam e se envenenam, porque todo bônus tem seu ônus. E ambas potencializaram o que a outra tinha de melhor. Fiquei a pensar: de que se trata essa ‘energia’ que só vem com o outro e que nos impulsiona rumo aos nossos desejos? Depois do filme uma certeza inevitável: há pessoas que precisam de outras, é fato.

Vivem sem? Vivem!!! Mas a que preço? Abdicando de que oportunidades?

O filme me calou fundo, porque me vejo assim atrelado a uma história que não termina dentro de mim. É um inferno. Admiro a coragem de Lota, admiro tanto, que matei uma das minhas personagens. Acho que ali, foi uma forma deu morrer um pouco, de abafar essa falta, de preencher esse vazio irreversível.

Uma tia comenta: que coisa mais ridícula morrer por causa de uma outra pessoa. A vida é tão cheia de possibilidades e a pessoa vai e se mata por amor? Ah não….

Eu ri, mas pensei internamente: Tia será que você já amou a essa ponto?

Não se trata de julgamentos, mas acho que para algumas pessoas, o amor é algo tão necessário quanto o ar. Que triste essa dependência do outro. Que triste me sinto quando acordo e me vejo rendido a uma lembrança, uma sensação, uma vontade, um sonho…

Entendo Lota, entendo as diversas cartas que ela escreveu. O que se tornou meu blog? Uma diário on line…. Será que lêem? E se lêem fazem o que com o que exponho?

O mais triste de Lota e Bishop é que mesmo amando a brasileira, a escritora decide viver longe. Mesmo sabendo que para a outra o amor dela é tudo, ela resolve viver a parte. Resolve não continuar florindo juntas. Afinal, chega uma hora que as pessoas querem caminhar por conta própria.

Sempre achei que uma relação amorosa, dá certo sempre. Seja para durar 1 semana, 1 mês, 10 anos. Sempre preferi viver um momento intenso e verdadeiro do que uma mentira prolongada e de fachada. Sempre defendi que não á fim, pois tudo foi vivido e experimentando. Mas no caso de Lota… ela perdeu… porque seu suicídio é um atestado da sua derrota. Porque só perdemos quando desistimos. E Lota se vê assim: sem forças para lutar.

Incontáveis dias eu acordei assim: querendo desistir…

No final de “Cerimônia do Adeus”, a Alice diz uma frase: “Deus…me deixe ter o que procuro. Você sabe que seria a primeira vez”.

Acho uma hipocrisia o poema de Bishop que encerra o filme. “Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo que eu amo) não muda nada”.

Como assim?

Talvez Elizabeth tenha se sentido aliviada com a morte de Lota. Com a morte daquele amor dilacerante e controlador. Talvez Elizabeth tenha recuado para preservar algo dentro dela. Mas nada, nada, nada é capaz de suprir o vazio que Lota sentiu. Porque a sensação de ser deixado é infinitamente maior do que deixar alguém. Querer falar e não ter o outro para ouvir, ver o corpo, as particularidades, as vontades, minguando sem o outro para observar.

A perda de Lota é séria, muito mais séria que esse poema de Elizabeth… comodamente preservada no seu lugarzinho seguro. Lembro de Carpinejar: Venha doer comigo, não se isole, não quero sua vida editada. (…) Eu quero envelhecer ardendo.

“Flores Raras” era para ser um filme sobre Lota e Bishop. Só que não. A dor de Lota ficou subjulgada. Ela seria incapaz de escrever algo sobre as “vantagens” de perder. Há perdas que não oferece vantagens. São irrevogáveis. Perder Bishop, fez com que Lota perdesse tudo.

E eu apreendo mais a dor de Lota…. oh como entendo….

“A Incerteza na escuridão da espera dói mais que a certeza da morte” – José De Souza Martins, sociólogo da USP (Folha de S. Paulo – 25/08/13)

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2 respostas para Flores Raras

  1. marisa disse:

    Somente hoje me encontro com esse texto tão doce e amargo ao mesmo tempo. Doce pela leveza que questiona a “arte de perder”. Entendo muito bem disso. Perdi a casa dos meus sonhos, os filhos que partiram e não se comunicam, o emprego que sempre resvala a cada final de contato, a amante que freqüenta a casa e leva o marido.
    Amargo, porque me faz deparar com tudo isso, anos depois, e entender que evitar o suicidar é o melhor sinal de toda essa história – não sucumbir -,nem tirar com as próprias mãos o resto de energia que sobra.
    É desta leveza que sopra do texto, de modo tão gentil, faz a brasa quase fria se revitalizar e se tornar fogo, gerar vida na dor que está de cara com a morte. Mas hoje, estas poucas palavras tiveram o poder de mudar uma história, de tranquilamente dizer… vai morte… quando eu estiver tranquila, o meu tempo chegar, te aceito de boa vontade.

  2. Eliane disse:

    Fantástico, indescritível… como posso recomeçar com outro amor se não o sinto…é uma morte dolorosa ser esquecido, qdo quer ser lembrado amado

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