A “loucura” de Lena Roque

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Quando nos deparamos com uma operária da arte, a única coisa que podemos fazer é sentar e observar. E foi o que fiz ontem. Sentei para fazer “volume” na plateia, mas o que me surpreendeu foi que mesmo com o teatro vazio, Lena Roque defendeu sua personagem com unhas e dentes. Não “temeu” a ausência de público. Se preencheu de algo que – nós atores – não conseguimos denominar e foi pra “guerra”.

Desprovida de expectativa, a atriz pôde se divertir e se deixar levar pelo drama de “sua” louca de amor, que “quase” surta pela ausência do ato sexual. #quemnunca? , você pode se perguntar em dado momento. A loucura da personagem e da artista se misturaram no palco e quem conhece Lena pessoalmente sabe que ela é por natureza engraçada. Mas o que vi ontem, foi um “plus” dessa que faz os amigos rirem das mazelas da vida.

Lena sobe nas escadas e pendura sua cortina; Lena cola o cílios postiços no escuro enquanto o técnico passa a luz; Lena ameaça chorar quando as dificuldades parecem insuportáveis, mas logo se harmoniza para acreditar que tudo vai ficar bem. E ficará, quem está ao lado dela automaticamente acredita.

Aprendi com a Lena que nunca se deve fazer uma peça com 57 vinhetas. É uma loucura insana. Sim ela é um pouco maluca mesmo. Mas também aprendi com ela que é possível ser irônico e debochado com muita sutileza. Quando questiono a sua delicadeza, quando sei que ela quer ser diferente, ela responde: “sou gentil sempre“.

Então ontem vi ela sendo gentil com seu oficio, e principalmente consigo mesmo. Serva de si mesma. Respeitando suas escolhas e pagando o preço delas, resignada. Eis ai uma qualidade que admiro no outro: sua capacidade de resignação. Não há como não se curvar diante de uma pessoa que se aceita e prossegue. Que naufraga, se afoga, se debate mas tenta seguir em frente. Em-cena-e-no-camarim, acho que vi isso ontem. Acho que tenho percebido isso à dias. Acho que….

Quando questionei que só havia duas pessoas na plateia, Lena não excitou: vou fazer. E foi justamente ontem que ela deu tudo de si. Eu ria dela e com ela e do que estava por trás de tudo o que estava escamoteado ali em cena.

Recentemente circulou pela a história de um ator europeu que sem ninguém na plateia fez sua peça mesmo assim. O vídeo  – muito bem editado por sinal – circulou pela internet, revelando muito mais do que um ator que não tem público. Revelando, pessoas que não desistem do seu ofício, mesmo quando tudo joga contra. Ontem parece que vi ao vivo alguém da “mesma” família desse ator. Ontem…

Esse dia ficará marcado para um futuro quando as estradas nos separar – eu e Lena – e restarmos na lembrança um do outro. Ontem… enquanto fazia volume na plateia do Teatro Décio de Almeida Prado fui sendo preenchido de algo que não consigo denominar, mas que me abastece.

E acho que no fim é isso que importa né: alguém que nos preencha de alguma forma.

O amor acaba amiga, mas espero que as boas lembranças não 😉

Boa sorte minha cara, muito boa sorte.

 

Louca de Amor – Quase Surtada (c/ Lena Roque)

Teatro Décio de Almeida Prado – Rua cojubá, 45 – Itaim Bibi – Tel: 3079-3438

Sexta(21h) e sábado (19h) – até 27/05

Livre – 60 minutos – R$20

 

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O que aprendi com Cacá Carvalho

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Talvez o certo seja dizer: “O que eu entendi do que o Cacá disse“. É assim que ele gostaria que nos pronunciássemos referente a tudo o que ele disse nesses 10 dias (50 horas) de curso no Teatro Faap, em decorrência da temporada de “2x 2=5 – O homem no subsolo” seu solo Dostoiévskiano.

Seu conselho é: Tome o Cacá como objeto de estudo e não um exemplo a ser seguido.

A oficina intitulada “O subsolo criativo do ator”, estimula a imersão do ator em terrenos mais obscuros do próprio processo criativo, com atenção e foco em toda a composição artística do todo,  que para Cacá não é ignorada em nenhum item da cena, muito menos num objeto: Só um ator de quinta acha que uma cadeira vale menos que ele, dispara ele.

Tive muitos insights, me identifiquei e foi de extrema importância poder sentar e ouvir ele divagar sobre a arte, seu processo de criação, os meandros dos (des)caminhos da profissão de atores e claro…várias informações extra curriculares. Em tempos obscuros é uma dádiva essa possibilidade de investigação teatral.

Abaixo, diria que são palavras saídas da boca dele e que rapidamente anotei, mas… como disse no primeiro parágrafo, o certo e dizer: o que eu entendi do que ele disse. Algumas eu já compactuava e foi muito acolhedor ouvir da boca de outro colega de profissão. Compartilho, pois considero pérolas. Fazem parte do que acredito e quero levar para sempre.

“Entre uma palavra e outra, não tem nada. Há o infinito, o subsolo. E o subsolo não se descreve. Se cria.”

“O trabalho tem que ser concebido para surpreender e dar desafios ao espectador. Ele é inteligente. Sua construção na minha frente me desconstrói e me obriga a me reconstruir na hora.”

“Você não pode ser o autor. Ele já foi. Então seja parceiro. Você sai da identificação e cria. Contribui”

“Eu não quero que você nos faça ver isso. Quero que você não nos deixe de ver isso”

“Não improvise. Trabalhe!”

“Um ator não vive cotidianamente. Ele só vive poeticamente. Existe uma possibilidade poética de se viver. Eu queria que isso não se perdesse de você.”

“O corpo reage as lógicas do contexto”

“O ator não vê apenas, tem que enxergar”

“Você pode ser capaz de reproduzir a estrutura. Porém, a questão é: onde se respira “a gente”. Onde o ser humano aparece?”

“O gestor dentro de si você tem que matar. Você não faz. Obedece. O ator viver uma experiência.”

“O espectador que gosta do trabalho é aquele que trabalha com o ator. Tem ativada a sua imaginação.”

“Coloque o ator na situação. Não deixe ele fazer discurso”

“Quando você estuda muito para fazer teatro, isso é péssimo!!! Você tem que viver a experiência.”

“Um tem que estar disponível e outro atirado. O teatro acontece entre um homem e outro”

“O artista não precisa ter talento. Precisa ter algo que não se compra, não se ensina, que se chama: entusiasmo. O ator que não tem entusiasmo não me interessa.”

“Não é como eu uso um objeto e sim como ele pede que eu aja.”

“O movimento interno do ator se lê”

“Quanto mais difícil for as opções cênicas, maiores as possibilidades de resultados. Se tudo estiver mão, o resultado é fraco. Quanto mais você facilita, menos fácil é de se encontrar riquezas.”

“Ninguém monta um trabalho pensando no fim. Eu não sei o sentido que ele vai ter.”

“Tem coisas que não nascem da criação e sim da desesperação

“Quem tem seu drama vive, não fica forjando a realidade. Do contrário fica no clichê da informação. É ação ou lamentação? Perceber a diferença”

“Não é um encontro que te dá a consciência. É uma sequência de. Uma série de ofensas.”

“O ator procura a liberdade. O diretor o condena a prisão. O ator portanto está condenado a ser livre.”

“Quando nasce uma ideia, o ator fica escravo do improviso. A ideia é ponte, não uma prisão”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ensimesmado

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Se eu pudesse ter um desejo, seria poder olhar para minha vida nesses últimos 15 anos, sem o teatro. Aonde e como estaria é uma curiosidade latente. E com o passar dos anos e do adensamento do meu trabalho, das escolhas e da reverberação, a curiosidade aumenta.

Ano passado fui acusado de ser uma pessoa “sem foco”, ao mesmo tempo que fui considerado um artista “ensimesmado”. Qual dos dois está equivocado? As duas opções me coloca na berlinda para pensar meu processo, a minha entrega e os caminhos que foram (e vão) se abrindo, por vezes de uma forma que nem eu acreditava que seria possível.

É claro que dos meus 5 trabalhos como ator (“Réquiem para um rapaz triste“, “Bicha Oca“, “Todas as horas do fim“, “Desamador” e “Cerimônia do Adeus”) Alice e Alceu – respectivamente personagem das duas primeiras peças citadas – são os responsáveis por tal empatia. Ambos arrastaram fãs e entusiastas do meu trabalho, que foram pessoas fundamentais para que eu pudesse ter oportunidades no decorrer da carreira.

Tirando a parte boa que é ser acolhido e ter o trabalho aceito e reverenciado. Contar com a gentileza das pessoas, da generosidade delas em entender que o meu amadurecimento como artista e minha formação se deram na prática, no dia a dia, no fazer cotidiano. E esse caminho foi de apresentações na casa das pessoas a um palco montado no Vale do Anhangabaú, de Natal (RN) a Porto Alegre (RS), do terraço do Copan para cidades do interior baiano. De diversas apresentações onde eu sai de casa sem ter a grana para voltar e “passava o chapéu”, na esperança que desse algumas moedas. E dava, nunca fiquei na rua.

Hoje, provavelmente – no mínimo – na metade da vida, me pergunto constantemente se fiz a escolha certa. Ser acusado de não ter “bens” materiais, o que credenciou a acusação de ser alguém sem foco, me magoou profundamente. Até porque tudo o que eu faço, é pelo meu trabalho, pelo que acredito que sirvo. Sou um servo. Sim, gostaria de “ser casada, gorda, alienada e completamente feliz” como diz, Alice, a personagem do “Réquiem…“, mas não foi possível. Na minha história de vida só me resta meu trabalho e o como que com ele reverbero. Na vida pessoal e profissional me tornei o reflexo dele.

Sou intenso… Já me apaixonei, perdi pessoas, enterrei amigos, me equivoquei, fui generoso, foram comigo… viajei, conheci pessoas, fiz amizades essenciais, quebrei a cara, me misturei com minhas personagens, chorei muito, tive insônia, testei meus limites, me afundei na lama. Tive minhas privações. Minha cota de ônus e bônus.

Mas ontem, na volta pra casa depois de mais um dia de ensaio, de uma tentativa de. Fui tomado por uma tristeza profunda. Por um medo. Assustado por uma entrega desmedida e sem poder apreender a dimensão de sua reverberação. É assim sempre, assumo. Mas dessa vez me parece mais fundo o poço. E como diria Caio Fernando Abreu, o poço não tem fim.

E naquele misto de epifania, realista estúpida, solidão e carência, jazia no ônibus lotado, sentado no chão num canto. Como se aquela barca-móvel-caixão-avião-chão-colchão, pudesse me tirar da minha realidade mais cruel e sem filtros. Não pude. Ele me trouxe para a casa da mãe, onde continuei a tentar me refazer dos últimos acontecimentos.

Não, não sei de onde arranjo forças. Afinal, sou “sem foco”. Não, não sei porque levanto amanhã e continuo. Não, não sei se foi eu que escolhi isso. Só sei que quando eu vi, eu já estava ali e não consegui mais sair. O teatro me fagocitou sem eu perceber, e restei só dentro de uma célula, metáfora para meu universo.

Não sei fazer outra coisa. Não sei como posso tentar fazer outra coisa. Para onde fugir. Porque se a minha realidade é o teatro, qualquer lugar fora dele é uma fuga. Assim como achei que fugiam de mim, com medo de morarem para sempre no meu campo energético, nos meus abraços, no território do meu olhar.

Amanhecer não me deu a sensação de vitória, e sim uma forma de permanecer refém das minhas escolhas. Cúmplice de ideais que me aprisionam e talvez faça com que eu não refaça minha vida e quem sabe assim, possa ser considerado um “cara focado”.

Minha vida “não tem foco”, meu quarto “parece um depósito”,  minha vida soa “fracassada”, o dinheiro (a falta) me diminui perante a família, colegas de trabalho, o afeto, a sociedade. Sirvo de exemplo para alguns amigos que veem em mim essa não desistência – desculpa amigos, mas perdi as contas de quantas vezes quis desistir, fracassei e não consegui – como um resistente, um exemplo, alguns “gozam pelos lábios alheios” no melhor estilho machadiano.

Parece que ainda estou rodando no chão daquele ônibus, enquanto rodava dentro de mim tantas emoções e sensações que me cegou e me fez vazar pelos olhos. E não havia ninguém ao lado. Podia ter  recorrido ao colo alheio. Testado a generosidade alheia. Mas quis tentar aguentar sozinho.

Ser ensimesmado pode ter me exposto e me colocado numa roubada. Juro que não previ. Como saber? E como muitos sempre supõem, não fui tomado pelo desejo, pela falta de consciência, pela incoerência. Talvez por certa ingenuidade. Em que momento em que se é “velho” e deixamos de ser ingênuo? Como diria Cazuza: “eu só sei insistir”.

Sou tomado pelo cansaço, pelo medo, pela saudade de outrora, de certa melancolia do passado, onde eu podia me acomodar nas dores (in)suportáveis e permanecer ali, morrendo a cada rejeição. Mas não, quis ousar, dar outra passo, procurar outro escape. Resta saber se estou sedimentando o caminho da falência ou da glória. Burlar com a realidade, já me foi tão perigoso e caro, que parece que voltei a me sentir a flor da pele, disponível. Mas viver é isso, certo?

Sem foco ou ensimesmado! O fato é que não consigo sair desse lugar de onde estou. Sofro. Talvez seja o desespero para escapar delas que me faz prosseguir. Se o teatro é o lugar das incertezas e dos questionamentos infinitos, poderei eu um dia (pro)seguir com mais certezas? A gente só colhe as certezas apostando tudo ou nada?

(Foto: Everton Campanhã, Araçatuba, julho/2016)

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Os dragões não conhecem o paraíso, por Reinaldo Reginato

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A peça “Os dragões não conhecem o paraíso” com direção de Rodolfo Lima e interpretação de Emerson Lima, passou pela Festival de Curitiba, na Mostra Paralela FRINGE e foi apresentada nos dias 04, 05 e 06 de abril, na Casa Hoffmann. O público compareceu, o ator ficou feliz e podemos ter uma compreensão maior do trabalho e dos desafios. No dia 04, Reinaldo apareceu e fez os registros desse post. #grato

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A violência da sua lembrança

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Ele gostaria que as lembranças fossem doces, amenas e apaziguadoras. Mas isso não era possível. Havia um abismo entre sua mente, seu coração e a realidade. As lembranças moram em que local?

Esse entre lugar que materializa a lembrança e o fazia parar e supor um rumo diferente para o amanhã, também perfaz a fragilidade de suas certezas. Afinal,  as lembranças são as epifanias nefastas de tudo o que se viu/viveu, seja subjetivamente ou na realidade.

Ele gostaria que as lembranças fossem alegres, agregadoras e indolor. Mas isso não era possível. Havia dentro de si pontos isolados onde se alojou a mágoa e o rancor e a rejeição. Fragmentos do outro que ele não foi capaz de juntar e seduzir. As lembranças merecem esse final?

Gostaria de salvaguardar sua memória do descaso do outro. Do silêncio. Da ausência. Do desprezo velado que durante muitas vezes esteve subjugado. Gostaria, mas gostar não é poder.

Ele não teve permissão. Não foi credenciado a ocupar espaço na vida alheia, saborear dos seus líquidos. Viu o corpo do outro por vezes se quebrar, se enganar, se iludir, ser usado e por mais que corresse para tentar juntar os caquinhos que insistiam em cair rotineiramente, jamais foi visto como alguém apto. Sem querer não percebia que se fragmentava junto. Eram duas individualidades se atritando… se revelando, se expondo, sem espaço para o silêncio e a contemplação – situação tipica dos amantes.

Ele gostaria que as imagens não fossem tão violentas pelas manhãs, quando o outro é seu primeiro pensamento. Nem nas madrugadas quando deita a cabeça no travesseiro e supõe a realidade de quem lhe despreza. (É a inveja de quem faz companhia para o outro que sombreia seus olhos?). E nem na rotina do dia a dia, quando enxerga o outro nos detalhes. Despretensiosamente.  Como fazemos quando sutilmente somos feridos por uma farpa. É assim: a lembrança lhe afeta e lhe fere + e + e +

Não sangra. Nunca sangrou. Talvez pelo fato de ter um corpo calejado de rejeições, senões. Aprendeu a reter pra si mesmo o que há de melhor e de pior em si mesmo. Seu sangue vida-vermelho, metáfora para seu sexo, o céu da sua boca, sua cor preferida. O escândalo que é desejar o indesejável.

O seu paraíso não é para mim“, ele repetia ao contemplar uma foto. Quisera que a memória que o remete ao outro também não o fosse. Quisera queimar o chip que absorveu com tanta delicadeza, devoção e competência as peculiaridades do seu corpo, as singularidades do seu jeito de ser. A beleza da proximidade do seu corpo, seu olhar… imperceptível para os descuidados. Quisera transformar toda a saudade (imatura?) em uma bomba relógio e explodir no próximo amanhecer. Assim não teria a perspectiva da sua lembrança amanhã. Assim, como foi implodido seu coração numa manhã nordestina.

Ele gostaria que as lembranças fossem recompensadoras, criativas e amorosas. Mas isso não é possível. Há vários lugares em que sua auto estima foi atacada. Filho da puta! Foi isso que ele foi um dia para o ser amado.

A violência da sua lembrança não o feria apenas aos poucos. O obrigava a ver traço a traço todo o histórico, que juntos, haviam detonado. E na reinvenção da memória do outro, nessa crueldade que é se preocupar com quem não se preocupa contigo ele jazia. Quando foi deixado para trás desassistido de motivos para continuar. Ele continuou. Com aquela estupidez que é caminhar lenta e ininterruptamente para longe e para o “fim”.

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O dia que amanheci com você no passado

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Onde fica guardado o amor depois que colocamos um ponto final na história? Ficou ruminando isso por dias. Não encontrou a resposta. Segue arrastando essas reticências. O coração esburacou. Murchou.

Aprendeu na escola que os pontos finais encerram frases. Deveriam também encerrar discusões, opiniões diversas e situações sem saída. E se dentro dele, sua história for tudo isso junto e misturado, como faz?

A mãe dele não havia ensinado como faz para prosseguir quando se amanhece esvaziado de expectativas. Elas são importantes mesmo quando se sabe que alimentá-la é uma tolice. Mas o que somos nós além de um apanhado de ilusões esperançosas sobre o amanhã, o outro e o amor um dia?

Naquele dia ele chorou mudo… não saiu som, eles não existem nesse campo devastado por tanta rejeição que virou sua memória. O que é a memória? Lembramos para sobreviver ou para reviver? Lembramos por apego, ou por saudades? Naquele dia ele queria desesquecer. Não dava, não deu. Ele inflou por dentro de solidão e saudades. Naquele dia ele vagou por ai. Esvaziado de sentido.

O dia que amanheceu com o coração no passado, havia siléncio. Havia escuridão também. Fazia frio, era cinza a perspectiva do dia. Estava abarrotado seu olhar no espelho. Naquele dia ele recomeçou uma nova história. A do dia que o outro viraria uma história a se contar, quem sabe um dia, para ser revivido nem que fosse no calabouços das esperanças. Da falta e da saudade do abraço… do olhar… do cabelo… da ingenuidade alheia… Nem que fosse para se fazer verdade na boca alheia, mesmo sabendo que seria tudo mentira na boca do outro. Agora criaria conflitos com quem?

Não chorarão mas de ódio um pelo outro. Não irão se irritar tão facilmente. Não irão se sentir confusos e inquietos.

Na lembrança só deveria restar o que apazigua. Mas dentro dele só há o que inflama. E o que inflama arde, e se arde lateja e se lateja dói e se dói… #fudeu

Os dias seguem. O passado permanece se fazendo presente. Os caminhos se renovam.  A casa do outro não pode ser frequentada. A própria casa o outro não sabe chegar.  Não saberá  mais dos passos do outro. Sua vida não interessa para ele. Não terá mais inveja de quem passa as noites com ele.  A carência e a saudade, são suas companheiras daqui por diante. Até que a vida abrande os ontens e o sorriso de saudades (levinha, ele pede ao céus) apareça as vezes, para temperar com boas lembranças o presente. Tudo o que não foram juntos.

Existe essa possibilidade?

Na foto: Hugo, crédito: Ricardo Rico

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O Inebriante Domínio da Cena – Quimeras da Vida, por Rodolfo Kfouri

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Quantos “sim” deixamos em cada “não”?

Penúltima noite da Mostra Cênica – Resistências, o Cursinho Alternativo recebe o espetáculo Réquiem Para Um Rapaz Triste do Teatro do Indivíduo de São Paulo – SP, a montagem se inicia em cena aberta: cama, almofadas, livros, perfume e cigarros, muitos cigarros; de imediato nos dimensiona a um quarto, próximo, íntimo e introspectivo; que poderia ser de qualquer um, mas é de Alice, a personagem que condensa em si um pouco do muito de cada pessoa, e assim o monólogo se inicia.

A dramaturgia construída a partir de recortes dos textos de Caio Fernando Abreu é correta e coerente, conferindo força e potência para toda a encenação, frases de efeito, retóricas e reflexões permeiam todo o monólogo, que em nenhum momento se torna cansativo ou fragilizado, a vivacidade das temáticas, a confluência de urgências e as ressonâncias íntimas envolve e conquista cada espectador.

É inebriante a capacidade do Rodolfo Lima de dominar a cena, responsável pela adaptação, concepção geral e interpretação, ele atribui vidas à Alice, criada em nuances, no detalhe, na partitura mais viva e emocionante possível; e mais do que isso capaz de ressignificar as existências, condensar em um personagem solidão, afeto, ternura, humor, ironia, profundidade, insensatez, sabedoria e acima de tudo, humanidade, fazendo com toda a plateia se identifique em suas ações, pensamentos e discursos.

A teatralização proposta se edifica em uma atmosfera do incomodo, utilizando-se de um espaço pequeno, sem ventilação, com um clima quente e fazendo uso de diversos cigarros, criando assim a metáfora da própria existência, a iminência e a efemeridade da vida na dança da fumaça em paralelo com as cinzas deste mesmo cigarro ao chão; vida e morte, fim e começo, recomeçando no intangível visível a olho nu, nas formas, nos cheiros, nos aromas e nas sensações; tornando toda obra uma grande experiência sensorial, vivida e sentida na pele.

O carisma da personagem e do ator Rodolfo Lima permite diversos questionamentos direcionados à plateia, que participa voluntária ou involuntariamente, o simples fato de estar margeando este quarto já nos coloca como participantes de toda encenação, mesmo que em silêncio, pois não dizer nada muitas vezes é dizer tudo; e nestes apartes deve-se haver o cuidado para não se desdobrar em excesso, a confiança e o domínio também podem distanciar de todo encantamento criado.

E assim, nesse retalho existencial, neste espelho de humanidade, uma tempestade começa a cair sobre o Cursinho Alternativo, e essa chuva, assim como o monólogo, seguem em uma harmoniosa sinfonia, acompanhando cada ação e reação. Não haveria trilha sonora mais ideal do que os raios, trovões e água caindo sobre a cidade.

Réquiem Para Um Rapaz Triste é sorriso, choro, lágrima; é poema escrito com sangue, pois é o coração que se torna legível; retratado em cada lembrança, refeito em cada estrofe, retido em nós. O nó na garganta, a voz seca, muda, o silêncio; silenciando gritos de uma vida, gritos de por que, exclamações de por que não; e assim, em cada não o sonho é visto no retrovisor, as possibilidades ficam à deriva, aguardando a coragem de se enfrentar. Ali se é único. Ali se é inclassificável. Ali se é o que se quiser ser. Alice é parte de um todo, que é todo em si mesmo, todo este que parte… Parte para a vida, para as vidas. Parte para o desconhecido, para o risco, para o amor, para o passo em falso; que se torna verdadeiro caminhar. Viver é ir partindo e se repartindo.

Quantos “sim” deixamos em cada “não”?

*Resenha Crítica escrita pro Rodolfo Kfouri, durante o Mostra Cênica – Resistências, realizada de 08 a 12 de fevereiro de 2017, em São José do Rio Preto.

A publicação original se encontra no link: http://ciacenica.com.br/sit/painel-critico/

Crédito imagem: Márcio Nakamoto

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