Para você que tem medo de afeto

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      O afeto do outro é um susto, já decretou Caio Fernando Abreu nos seus escritos. É uma das minhas “máximas” preferidas do autor gaúcho, e sempre me pego as volta com ele na mente. Porque não reagimos com facilidade ao simples, escreveu Carpinejar, Outro gaúcho na minha vida. E o simples é:
      – oi, gosto de você.
      Gostar de alguém pode ser um problema dos grandes em épocas onde as pessoas não tem paciência e nem crença na construção e desconstrução de algo. Construção do afeto, do desejo, da generosidade, da cumplicidade, da amizade e o mais importante, da lealdade. Desconstrução de uma amizade, dos preconceitos, dos medos, dos velhos hábitos, das velhas armas. Carecemos de novidades, porém, vivemos aterrados em hábitos e crenças do passado. O ser humano é uma contradição sem medida.
     Recentemente fui questionado porque não me deixava ser abraçado, aceitava um papo com mais calma, ser ajudado. Ao ler o convite fiquei sem graça. Porque não sou acostumado a receber este tipo de convite singelo, porém rodeado de metáforas potentes. Afinal, me sentir seguro num abraço, ter um cúmplice e ser seduzido num passeio simples como um suco numa esquina qualquer, está entre os meus desejos contidos.
     Neguei. Ou melhor, protelei a negativa. Não porque o outro não merece uma chance. Mas porque ao vivo, digamos que a pessoa perdeu pontos. E sou daqueles: jogue com tudo pra cima. Joque pra ganhar, não seja comedido. Adoro uma audácia. E ao meu “olhar”, o outro se acanhou. Onde deveria ter “crescido”, se intimidou. Ok, acontece.
     Lembro que dá última vez que isso ocorreu de forma singular e potente, durou pouco. Foi forte e deixou marcas indeléveis nas minhas lembranças e mudou o curso das minhas expectativas amorosas. Marco deixou herança, recordações e uma saudade, que não encontrei de novo. Que é daquela sensação da pessoa que se fudeu na vida, mas não perdeu a capacidade de acreditar. E como no campo das relações isso é importante. Ser crível para o outro. Ser a aposta do outro. Ser valorizado pelo outro. Marco já morreu, mas deixou em mim essa saudade de querer/poder acreditar de graça em alguém. Pelo simples fato de estar vivo e ser capaz de tentar de novo, e de novo, e de novo. Que saudades do seu frescor. Daquela ingenuidade que o afeto trás no começo e que encanta tanto.
     Para você que tem medo do afeto, eu diria que é uma grande bobagem, o medo. Primeiro porque o medo nos impossibilita de ver, sentir, ouvir, avançar, evoluir, ampliar os horizontes. O medo nos faz ficar preso a velha carapaça e ficar batendo cabeça na mesma velha parede dura dos ontens. E penso sempre. Se for para me rachar. Prefiro que seja num lugar novo e desconhecido. Eis a graça, se for para ser devastado, que seja pela novidade. Alguém que revire minhas expectativas, afaste meus fantasmas, remexa nos cantos escuros, me ensine a olhar e me proponha novos desafios. Sejam corporais, emocionais, de vida. Ser surpreendido pelo afeto alheio me é sempre  motivo de alegria, porque hoje as pessoas se usam. Se fodem. Se experimentam e se descartam. Dai dar de cara com alguém que é capaz de olhar para minhas particularidades, é no minimo uma benção.
     Não deixem de me olhar!
     Pois ao me olhar você valoriza o que talvez eu nem goste em mim.  Que é a capacidade de me destruir a cada crítica, obstáculo, empecilho, frustração. Ao me olhar, me elogiar, crer em mim, sou acarinhado na minha perspectiva de vida. No meu amanhã que nem nasceu. Ao me apoiar e permanecer do meu lado quando tudo joga contra “você” se torna uma oportunidade na vida. Se relações são oportunidade espirituais, quero sempre acertar. E o acerto aqui vem da minha capacidade de me permitir. Me permitindo eu me redescubro. E nesse novo horizonte me refaço e aprendo e cresço.
     Não desconsideremos que o elemento mais bonito da vida é o mistério (Pe. Fábio de Melo). E ao permitir que o outro chegue até a gente, adentre a casa da gente. E nos queria mesmo quando insistimos em não precisar dele. Temos nossa vida transformada pela possibilidade de. E o “e se” é o que te/nós falta. A graça mora nas certezas ou nas estranhezas?
     Para você sou como um rojão. Se você me segurar e mirar para o alto, posso te surpreender e te fazer sorrir. Se você mirar no próprio peito, te destruo?
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Uma resposta para Para você que tem medo de afeto

  1. Maria disse:

    Tão acolhedor que me senti acarinhada. Agradeço a leveza da entrega. Très bom!

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