No colo do outro, o afago que você negou

 

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Disse na aula de teatro que havia sonhado contigo. Se interessaram por você, pela situação, pelo desarranjo que nós uniu e nos separou. Alguém se interessou pelo que não fomos. Achei bonito. Uma espécie de cumplicidade estranha. Afinal, o ator que escolheu eu mal conheço. Se ele conhecesse você, teria escolhido o sonho assim mesmo?

O sonho era simples, mas foi perturbador. Nele estávamos sentados lado a lado, numa calçada no meio de uma rua sem saída, uma vila onde havia várias casas, morávamos em casas separadas. Lado a lado era como que se pudêssemos nos evitar por inteiro, mas o alinhamento no qual estávamos sentados, nos revelava. Poderíamos estar incomodados um com o outro, mas permanecíamos ali. A nos observar, de lado, sem querer querendo. É assim ainda? A distância ainda não apagou tudo?

No sonho você cantava uma música que falava de saudade, eu não lembro do que fazia. talvez porque assim como na vida real, no sonho eu pensei muito mais em você do que em mim em alguns momentos. Eu te olhava, você se incomodava, parecia temeroso. Não, eu não queria te criticar. Só te olhar nos olhos, te observar. Lembra como elogiava seus olhos? Acho que não… Mas fazer isso – te olhar – também foi um ponto inflamatório no que chamo de “nossa” história. Sei que é um erro esse “nossa”, desculpe.

No exercício de improvisação, o ator sugeriu, deite no meu colo Rodolfo, vou cantar uma canção sobre saudades para você, me chamou a atenção sua história.

E assim foi feito. Enquanto eu simulava um sonho perturbador e os outros atores simulavam o meu sonho, eu era acarinhado na cabeça, com os dedos do outro entre os meus cabelos. Como se na ficção eu pudesse ter minha aflição do desamor sanada. Achei poético aquele ator, supostamente heterossexual, propor uma cena tão delicada e singela, uma retratação do meu destempero amoroso. Como diria Carpinejar: não estamos preparados para o afeto alheio.

Isso não muda?

Passar a mão pela minha cabeça… isso nunca lhe ocorreu. Afinal eu sou careca e você detestava. É a metáfora da velhice, de uma falta de vaidade, da ausência de cuidado, no seu entender e tudo isso: velhice+falta-de-vaidade+descuido, está longe do seu que sonha como ideal. Mas é que eu nunca achei que isso fosse tão importante. O corpo responde ao tempo, tem beleza nisso. Pena que você ainda não aprendeu a ver poesia nisso. Ou se aprendeu, não dividiu comigo.

Cabelos, são meu fraco. Talvez por não poder tê-los a contento, vivo a admirar o dos outros. E como eu gostava do seu… inclusive de passar as mãos. Eu queria ceder a energia, que eu supunha boa –  e você via como má – que podia vazar do meu afeto, para isso que podia ser uma parte boa de você, uma ponte de comunicação sútil e despretensiosa contigo. Não, isso também se desfez com o tempo… não me lembro quando isso não pôde mais ocorrer. Se juntou aos amontoados de nãos.

Na hora da cena, foi tudo rápido e não me trouxe você no instante. Mas depois fiquei a digerir o ocorrido. No colo do outro, o afago que você negou. Pois mesmo nos piores momentos, você nunca se prontificou a um gesto físico de carinho. Não sai sofrendo da aula, apenas pensativo.

Na minha “careca” dedos estranhos, “heteros” (que ridículo dizer isso), solitários como meus sonhos, parceiro de minha confusões noturnas. Achei poético, inesperado. Uma epifania.

 

 

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