Eu não tenho nada na vida

Os anos passam e na minha vida só uma certeza: eu não tenho nada. Perdi amores, amigos e oportunidades mesmo lutando para retê-los a mim. Afinal, se o que temos é o momento presente, há muitos em que lamento ter perdido, terem sidos tirados de mim, me desprezado. E o que posso fazer da vida hoje é silenciar, manter o olhar no horizonte e seguir. Meu maior desejo: não olhar para atrás, nunca mais.

Minha memória retêm poucas coisas, embora por vezes ache que não. E alguém me lembra que não. Gosto quando me vejo surpreendido por mim mesmo. Pois posso não ter nada, mas tendo a mim, ainda posso me proporcionar bons momentos.

Seguir não é fácil. É tarefa árdua. Não porque o futuro é incerto e mal tenho dinheiro para me manter vivo. E sim porque não se apegar ao que já perdi, me é uma tarefa hercúlea e cotidiana. Um livro, um cheiro, um sonho, uma música, um nome, uma situação, uma cidade, um amigo… tantas lembranças… como faço para empacotá-las?

Eu não tenho nada na vida, então tentarei ser mais inteiro e único nas possibilidades que tiver. Não ficar procurando respostas que só virão com o tempo e nem tentando decifrar o que há por trás das máscaras dos outros. Me contentar – e sempre permanecer alerta – em aceitar aquela “máscara colorida” que o outro oferece naquele momento.

As coisas se amontoam e me aflige. E se eu morrer amanhã? Coitada da minha mãe, tanta coisa para jogar fora. Vai me xingar dias por ter deixado uma tarefa tão inglória para ela de herança.

As pessoas quiseram morrer dentro de mim e me ressinto em muitos momentos de não saber o que fazer com o que elas deixaram dentro de mim. Os resquícios. Os restos. O que me cabe é os restos.

Virei aquele tipo de amigo acessado quando se necessita. E eu não tenho nada na vida. Então para que se apegar a mim?

Seu eu (re)construir um mundo onde habitar, estarei tecendo uma nova história, como possibilidades de finais diferentes? Se eu apreender a dimensão do ser só e ter pouco, acalmo o coração e diminuo a aflição da mente? Sossego o corpo e relaxo os sonhos? Amortecendo eu me anulo?

Mesmo temendo ser esquecido em poucos metros quadrados, devo prosseguir, remar.

Que meu olhar não se escureça.

Que minha sensibilidade seja (re)trabalhada de outra forma.

Que eu ouça mais e melhor.

Que eu me convença definitivamente que a melhor companhia é a minha mesmo.

E que o passado jamais volta, os fantasmas sim… as oportunidades, bem…quase nunca.

Eu não tenho nada na vida e tenho que lutar sempre, a cada minuto. Que me seja dado mais discernimento e menos apego. Quero ser leve, livre, lúcido.

Que no meu nada, eu redescubra que preciso de pouco e poucas. Que no meu nada eu deixe as lembranças de um passado que jamais recuperarei irem embora, que elas tenham piedade de mim e me abandonem. Como se eu sofresse precocemente da perda da memória.

Quero fabular só o que está ao alcance das minhas mãos, só o lugar que meus pés puderem me levar. Sem expectativa no outro, sem magoa do outro, sem ranços.

Austin Kleon em seu livro “Roube como um artista” aponta: Não é necessário sair de casa. Sente-se à sua mesa e ouça. Nem mesmo ouça, apenas espere. Não espere, fique quieto e a sós. O mundo inteiro irá oferecer-se a você.

Que assim seja!

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4 respostas para Eu não tenho nada na vida

  1. Você tem uma inteligência incrível e uma mente livre. Tem o dom de um artista que quase ninguém tem. Tem sensibilidade para enxergar pequenos detalhes do dia a dia. Tem a você mesmo e esse é o maior ganho de todos. Fiquei repassando esse trecho “Virei aquele tipo de amigo acessado quando se necessita” e pensando ironicamente que tem gente que tem menos ainda…

  2. Adriano Del Valle disse:

    Bonito!

  3. Vallone disse:

    Profundo. Falou tudo aquilo que vivo, sinto mas não sei expressar. Magnífico.

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