Da última vez que vi seus olhos

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Lembro bem da última vez que te vi. Tive uma leve sensação de que naquele momento seus olhos não se deitavam sobre mim me julgando. Você apenas observou. Tinha algo no seu olhar que havia zerado toda a sua rejeição a minha pessoa. Eram momentos como esses que me faziam supor que poderíamos ter mais momentos de cumplicidade do que de inimizades, quando feridos, agredíamos. Armávamos igual a carapuça, e não sabíamos quem caia nela primeiro, pois ambos se viam enredados em lugares que não havia desejado.

Lembro que me passou pela cabeça: olha bem para ele Rodolfo, pois você não sabe se poderá vê-los novamente. É, não pude. Se o seu olhar era uma das coisas que eu mais gostava em você, fui apartado dessa possibilidade de apreciá-lo, mesmo que a distância, de soslaio, sofrendo por vezes vendo onde seu olhar pousava. As vezes só vagava e acho que de certa forma, tinha inveja do que fazia seu olhar passear. Queria ter sido o seu passeio.

Lembro das vezes que você me olhava com aquela malicia de saber que eu estava mentindo, ou de que a minha ironia não ia te fazer responder. Aquele olhar que repetia – mesmo sem soltar uma palavra – não vou entrar no seu jogo Rodolfo, não vou dar resposta que você quer. Ah, como eu gostava desse jogo emblemático entre o não dito e o desejado. O “boom” das relações está nesse entreato que perfaz os dois pólos/corpos que são como pontes moveis que se ligam e se desligam com a facilidade do trânsito de informações.

Lembro que atracava meu navio no caos/você. Meus olhos eram ancoras que jogava aos seus pés, aterrando ali, minhas ilusões tolas e desesperançadas, mas que se faziam vivas e retumbantes no confronto dos seus nãos. Não posso nem mais empilhá-los. Seria uma forma de te fazer presente, mesmo me desprezando.

Lembro que por mais que eu desejasse olhar – muito mais do que tocar – você. Eu disciplinadamente o ignorava, pois assim era mais fácil não estampar meu afeto. Nunca quis fazer dele bandeira. Mas hoje percebo, que empunhá-la era a única coisa que eu podia fazer para validar meus sentimentos. E se não para você, para mim mesmo, como que a me contemplar com a capacidade de me reinventar, mesmo quando o outro já desistiu de você.

Lembro que por mais que suas palavras me jogasse para longe de ti, era no abismo do seu olho que eu me identificava. Era como se ali eu achasse uma ponte – incompreensível – de comunicação. As vezes eu te abraçava e achava que sim, nos entendiamos melhor do que quando jogávamos nossas opiniões um na cara do outro, como forma de aprisionar nossas “certezas”. Por vezes eu te olhava e queria ficar assim… no parado, só te olhando.

Da última vez que vi seu olhar, pensei que nunca mais te veria. E nunca mais te vi. Nem para criar atritos nossos olhares se encontraram, nem por trás dos óculos eles brigaram para ver quem era o mais magoado.

Queria poder vê-los agora. Não para alimentar nada. Apenas para poder observar com saudades um lugar que almejei morar um dia e que mesmo sem ter a noção exata do que isso significava, insistiu. Desculpe. Parafraseando Cazuza: eu só soube insistir. Gosto de pensar que se nós olhássemos agora, nós sentiríamos um pouco acolhidos um no outro. Nessa loucura que foi/é saber dessa dubiedade do encontro de nossas singularidades.

Seu olhar está preenchido agora? Vago? Solitário? Cansado? Perdido? Medroso? Se eu pudesse te olhar agora eu te ligaria. Se em vez da sua voz, da forma rude como botava pra fora meu nome. Se em vez de ser agredido pela sua boca eu pudesse ser fuzilado pelo seu olhar, eu o desejaria agora.  Simples e mortal assim. Para quem sabe renascer amanhã, com menos saudades de poder contemplá-lo.

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