Ensimesmado

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Se eu pudesse ter um desejo, seria poder olhar para minha vida nesses últimos 15 anos, sem o teatro. Aonde e como estaria é uma curiosidade latente. E com o passar dos anos e do adensamento do meu trabalho, das escolhas e da reverberação, a curiosidade aumenta.

Ano passado fui acusado de ser uma pessoa “sem foco”, ao mesmo tempo que fui considerado um artista “ensimesmado”. Qual dos dois está equivocado? As duas opções me coloca na berlinda para pensar meu processo, a minha entrega e os caminhos que foram (e vão) se abrindo, por vezes de uma forma que nem eu acreditava que seria possível.

É claro que dos meus 5 trabalhos como ator (“Réquiem para um rapaz triste“, “Bicha Oca“, “Todas as horas do fim“, “Desamador” e “Cerimônia do Adeus”) Alice e Alceu – respectivamente personagem das duas primeiras peças citadas – são os responsáveis por tal empatia. Ambos arrastaram fãs e entusiastas do meu trabalho, que foram pessoas fundamentais para que eu pudesse ter oportunidades no decorrer da carreira.

Tirando a parte boa que é ser acolhido e ter o trabalho aceito e reverenciado. Contar com a gentileza das pessoas, da generosidade delas em entender que o meu amadurecimento como artista e minha formação se deram na prática, no dia a dia, no fazer cotidiano. E esse caminho foi de apresentações na casa das pessoas a um palco montado no Vale do Anhangabaú, de Natal (RN) a Porto Alegre (RS), do terraço do Copan para cidades do interior baiano. De diversas apresentações onde eu sai de casa sem ter a grana para voltar e “passava o chapéu”, na esperança que desse algumas moedas. E dava, nunca fiquei na rua.

Hoje, provavelmente – no mínimo – na metade da vida, me pergunto constantemente se fiz a escolha certa. Ser acusado de não ter “bens” materiais, o que credenciou a acusação de ser alguém sem foco, me magoou profundamente. Até porque tudo o que eu faço, é pelo meu trabalho, pelo que acredito que sirvo. Sou um servo. Sim, gostaria de “ser casada, gorda, alienada e completamente feliz” como diz, Alice, a personagem do “Réquiem…“, mas não foi possível. Na minha história de vida só me resta meu trabalho e o como que com ele reverbero. Na vida pessoal e profissional me tornei o reflexo dele.

Sou intenso… Já me apaixonei, perdi pessoas, enterrei amigos, me equivoquei, fui generoso, foram comigo… viajei, conheci pessoas, fiz amizades essenciais, quebrei a cara, me misturei com minhas personagens, chorei muito, tive insônia, testei meus limites, me afundei na lama. Tive minhas privações. Minha cota de ônus e bônus.

Mas ontem, na volta pra casa depois de mais um dia de ensaio, de uma tentativa de. Fui tomado por uma tristeza profunda. Por um medo. Assustado por uma entrega desmedida e sem poder apreender a dimensão de sua reverberação. É assim sempre, assumo. Mas dessa vez me parece mais fundo o poço. E como diria Caio Fernando Abreu, o poço não tem fim.

E naquele misto de epifania, realista estúpida, solidão e carência, jazia no ônibus lotado, sentado no chão num canto. Como se aquela barca-móvel-caixão-avião-chão-colchão, pudesse me tirar da minha realidade mais cruel e sem filtros. Não pude. Ele me trouxe para a casa da mãe, onde continuei a tentar me refazer dos últimos acontecimentos.

Não, não sei de onde arranjo forças. Afinal, sou “sem foco”. Não, não sei porque levanto amanhã e continuo. Não, não sei se foi eu que escolhi isso. Só sei que quando eu vi, eu já estava ali e não consegui mais sair. O teatro me fagocitou sem eu perceber, e restei só dentro de uma célula, metáfora para meu universo.

Não sei fazer outra coisa. Não sei como posso tentar fazer outra coisa. Para onde fugir. Porque se a minha realidade é o teatro, qualquer lugar fora dele é uma fuga. Assim como achei que fugiam de mim, com medo de morarem para sempre no meu campo energético, nos meus abraços, no território do meu olhar.

Amanhecer não me deu a sensação de vitória, e sim uma forma de permanecer refém das minhas escolhas. Cúmplice de ideais que me aprisionam e talvez faça com que eu não refaça minha vida e quem sabe assim, possa ser considerado um “cara focado”.

Minha vida “não tem foco”, meu quarto “parece um depósito”,  minha vida soa “fracassada”, o dinheiro (a falta) me diminui perante a família, colegas de trabalho, o afeto, a sociedade. Sirvo de exemplo para alguns amigos que veem em mim essa não desistência – desculpa amigos, mas perdi as contas de quantas vezes quis desistir, fracassei e não consegui – como um resistente, um exemplo, alguns “gozam pelos lábios alheios” no melhor estilho machadiano.

Parece que ainda estou rodando no chão daquele ônibus, enquanto rodava dentro de mim tantas emoções e sensações que me cegou e me fez vazar pelos olhos. E não havia ninguém ao lado. Podia ter  recorrido ao colo alheio. Testado a generosidade alheia. Mas quis tentar aguentar sozinho.

Ser ensimesmado pode ter me exposto e me colocado numa roubada. Juro que não previ. Como saber? E como muitos sempre supõem, não fui tomado pelo desejo, pela falta de consciência, pela incoerência. Talvez por certa ingenuidade. Em que momento em que se é “velho” e deixamos de ser ingênuo? Como diria Cazuza: “eu só sei insistir”.

Sou tomado pelo cansaço, pelo medo, pela saudade de outrora, de certa melancolia do passado, onde eu podia me acomodar nas dores (in)suportáveis e permanecer ali, morrendo a cada rejeição. Mas não, quis ousar, dar outra passo, procurar outro escape. Resta saber se estou sedimentando o caminho da falência ou da glória. Burlar com a realidade, já me foi tão perigoso e caro, que parece que voltei a me sentir a flor da pele, disponível. Mas viver é isso, certo?

Sem foco ou ensimesmado! O fato é que não consigo sair desse lugar de onde estou. Sofro. Talvez seja o desespero para escapar delas que me faz prosseguir. Se o teatro é o lugar das incertezas e dos questionamentos infinitos, poderei eu um dia (pro)seguir com mais certezas? A gente só colhe as certezas apostando tudo ou nada?

(Foto: Everton Campanhã, Araçatuba, julho/2016)

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Uma resposta para Ensimesmado

  1. Doce e contundente, como uma narvalha ou qualquer fio cortante, que expurga o cancro da dor. Depois do corte, a felicidade da cura. Mas não é o artista um ser que aposta nesta escolha de viver com a dor ou extirpá-la?
    Se te ajuda, estou com a mesma dor e a mesma faca cortante em mãos. A decisão é difícil, embora pensemos que a cura é o verdadeiro destino de nossas vidas fagocitadas.
    Se te serve de consolo, já estive no fundo do ônibus e do poço, ambos não parecaim levar a nada, senão o esforço de entendê-los.
    Se te serve de consolo, já fui acusado de aimless! Mas não de tentativas esta vida? Ou seria de certezas?
    Eu te dou um longo abraço, não apenas pelo reconhecimento de tua arte e de teu destino, mas pelo simples fato de que és humanamente lindo!
    Merda, sempre!

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