A violência da sua lembrança

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Ele gostaria que as lembranças fossem doces, amenas e apaziguadoras. Mas isso não era possível. Havia um abismo entre sua mente, seu coração e a realidade. As lembranças moram em que local?

Esse entre lugar que materializa a lembrança e o fazia parar e supor um rumo diferente para o amanhã, também perfaz a fragilidade de suas certezas. Afinal,  as lembranças são as epifanias nefastas de tudo o que se viu/viveu, seja subjetivamente ou na realidade.

Ele gostaria que as lembranças fossem alegres, agregadoras e indolor. Mas isso não era possível. Havia dentro de si pontos isolados onde se alojou a mágoa e o rancor e a rejeição. Fragmentos do outro que ele não foi capaz de juntar e seduzir. As lembranças merecem esse final?

Gostaria de salvaguardar sua memória do descaso do outro. Do silêncio. Da ausência. Do desprezo velado que durante muitas vezes esteve subjugado. Gostaria, mas gostar não é poder.

Ele não teve permissão. Não foi credenciado a ocupar espaço na vida alheia, saborear dos seus líquidos. Viu o corpo do outro por vezes se quebrar, se enganar, se iludir, ser usado e por mais que corresse para tentar juntar os caquinhos que insistiam em cair rotineiramente, jamais foi visto como alguém apto. Sem querer não percebia que se fragmentava junto. Eram duas individualidades se atritando… se revelando, se expondo, sem espaço para o silêncio e a contemplação – situação tipica dos amantes.

Ele gostaria que as imagens não fossem tão violentas pelas manhãs, quando o outro é seu primeiro pensamento. Nem nas madrugadas quando deita a cabeça no travesseiro e supõe a realidade de quem lhe despreza. (É a inveja de quem faz companhia para o outro que sombreia seus olhos?). E nem na rotina do dia a dia, quando enxerga o outro nos detalhes. Despretensiosamente.  Como fazemos quando sutilmente somos feridos por uma farpa. É assim: a lembrança lhe afeta e lhe fere + e + e +

Não sangra. Nunca sangrou. Talvez pelo fato de ter um corpo calejado de rejeições, senões. Aprendeu a reter pra si mesmo o que há de melhor e de pior em si mesmo. Seu sangue vida-vermelho, metáfora para seu sexo, o céu da sua boca, sua cor preferida. O escândalo que é desejar o indesejável.

O seu paraíso não é para mim“, ele repetia ao contemplar uma foto. Quisera que a memória que o remete ao outro também não o fosse. Quisera queimar o chip que absorveu com tanta delicadeza, devoção e competência as peculiaridades do seu corpo, as singularidades do seu jeito de ser. A beleza da proximidade do seu corpo, seu olhar… imperceptível para os descuidados. Quisera transformar toda a saudade (imatura?) em uma bomba relógio e explodir no próximo amanhecer. Assim não teria a perspectiva da sua lembrança amanhã. Assim, como foi implodido seu coração numa manhã nordestina.

Ele gostaria que as lembranças fossem recompensadoras, criativas e amorosas. Mas isso não é possível. Há vários lugares em que sua auto estima foi atacada. Filho da puta! Foi isso que ele foi um dia para o ser amado.

A violência da sua lembrança não o feria apenas aos poucos. O obrigava a ver traço a traço todo o histórico, que juntos, haviam detonado. E na reinvenção da memória do outro, nessa crueldade que é se preocupar com quem não se preocupa contigo ele jazia. Quando foi deixado para trás desassistido de motivos para continuar. Ele continuou. Com aquela estupidez que é caminhar lenta e ininterruptamente para longe e para o “fim”.

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