O Inebriante Domínio da Cena – Quimeras da Vida, por Rodolfo Kfouri

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Quantos “sim” deixamos em cada “não”?

Penúltima noite da Mostra Cênica – Resistências, o Cursinho Alternativo recebe o espetáculo Réquiem Para Um Rapaz Triste do Teatro do Indivíduo de São Paulo – SP, a montagem se inicia em cena aberta: cama, almofadas, livros, perfume e cigarros, muitos cigarros; de imediato nos dimensiona a um quarto, próximo, íntimo e introspectivo; que poderia ser de qualquer um, mas é de Alice, a personagem que condensa em si um pouco do muito de cada pessoa, e assim o monólogo se inicia.

A dramaturgia construída a partir de recortes dos textos de Caio Fernando Abreu é correta e coerente, conferindo força e potência para toda a encenação, frases de efeito, retóricas e reflexões permeiam todo o monólogo, que em nenhum momento se torna cansativo ou fragilizado, a vivacidade das temáticas, a confluência de urgências e as ressonâncias íntimas envolve e conquista cada espectador.

É inebriante a capacidade do Rodolfo Lima de dominar a cena, responsável pela adaptação, concepção geral e interpretação, ele atribui vidas à Alice, criada em nuances, no detalhe, na partitura mais viva e emocionante possível; e mais do que isso capaz de ressignificar as existências, condensar em um personagem solidão, afeto, ternura, humor, ironia, profundidade, insensatez, sabedoria e acima de tudo, humanidade, fazendo com toda a plateia se identifique em suas ações, pensamentos e discursos.

A teatralização proposta se edifica em uma atmosfera do incomodo, utilizando-se de um espaço pequeno, sem ventilação, com um clima quente e fazendo uso de diversos cigarros, criando assim a metáfora da própria existência, a iminência e a efemeridade da vida na dança da fumaça em paralelo com as cinzas deste mesmo cigarro ao chão; vida e morte, fim e começo, recomeçando no intangível visível a olho nu, nas formas, nos cheiros, nos aromas e nas sensações; tornando toda obra uma grande experiência sensorial, vivida e sentida na pele.

O carisma da personagem e do ator Rodolfo Lima permite diversos questionamentos direcionados à plateia, que participa voluntária ou involuntariamente, o simples fato de estar margeando este quarto já nos coloca como participantes de toda encenação, mesmo que em silêncio, pois não dizer nada muitas vezes é dizer tudo; e nestes apartes deve-se haver o cuidado para não se desdobrar em excesso, a confiança e o domínio também podem distanciar de todo encantamento criado.

E assim, nesse retalho existencial, neste espelho de humanidade, uma tempestade começa a cair sobre o Cursinho Alternativo, e essa chuva, assim como o monólogo, seguem em uma harmoniosa sinfonia, acompanhando cada ação e reação. Não haveria trilha sonora mais ideal do que os raios, trovões e água caindo sobre a cidade.

Réquiem Para Um Rapaz Triste é sorriso, choro, lágrima; é poema escrito com sangue, pois é o coração que se torna legível; retratado em cada lembrança, refeito em cada estrofe, retido em nós. O nó na garganta, a voz seca, muda, o silêncio; silenciando gritos de uma vida, gritos de por que, exclamações de por que não; e assim, em cada não o sonho é visto no retrovisor, as possibilidades ficam à deriva, aguardando a coragem de se enfrentar. Ali se é único. Ali se é inclassificável. Ali se é o que se quiser ser. Alice é parte de um todo, que é todo em si mesmo, todo este que parte… Parte para a vida, para as vidas. Parte para o desconhecido, para o risco, para o amor, para o passo em falso; que se torna verdadeiro caminhar. Viver é ir partindo e se repartindo.

Quantos “sim” deixamos em cada “não”?

*Resenha Crítica escrita pro Rodolfo Kfouri, durante o Mostra Cênica – Resistências, realizada de 08 a 12 de fevereiro de 2017, em São José do Rio Preto.

A publicação original se encontra no link: http://ciacenica.com.br/sit/painel-critico/

Crédito imagem: Márcio Nakamoto

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