Abraçar você

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Abraçar você é algo que não posso, creio que nunca pude. Não devo poder amanhã. Seria bom poder se aconchegar no meio do seus braços, pois são nesses momentos que percebemos que podemos ser acolhidos e aceitos, apesar de. O abraço mais do que as palavras, acalenta e aquece, suprimindo tudo o que de ruim possa ter ficado entre os peitos.

Entre nós, só houve rejeição. E o sentimento que ela causa, é quase como um buraco no peito, um vácuo, impossível de ser sanado. Não sei se tem abraço que dê conta de conter o vazio. Ai me pergunto, e se o vazio estiver em ambos?

Sempre reparei como você abraçava as pessoas. E ficava a me perguntar quando mereceria um abraço assim. Parecia inteiro, embora soubesse que você não se doa com tanta facilidade. E se no abraço nos revelamos, será que consegui ler você quando via você abraçando o outro? Tinha essa pretensão. Olha que ingenuidade.

Seria bom poder abraçar você agora. Não porque posso morar neles. Mas sim porquê, ganhar um abraço seria como ser acolhido depois de uma surra, uma tempestade, um equivoco. Você não perdoou meus deslizes. Deve ser por isso que nunca mereci um abraço seu espontâneo. Muito pelo contrário. O que você me ofertou foi o oposto de tudo o que achei que merecia.

Eu acho demais. Eu sinto muito, esse é o problema. Não adiantou eu me desculpar. Não adiantou eu me disponibilizar para te ajudar, te abraçar, te acolher, te entender e te aceitar. Nada fez com que eu merecesse seu abraço. Mas hoje, agora… me deu uma saudade de voltar a supor que sim, você pode chegar um dia de repente e dizer: Oi Rodolfo, vim te abraçar.

Nas minhas aulas de teatro, dou um exercício que estimular os alunos a se abraçarem. Acho lindo pessoas na rua com a placa: Abraço grátis. Sempre recebi elogios pela intensidade do meu abraço. De tanto que as pessoas apontaram comecei a observar. As pessoas dizem: você abraça com o corpo todo. Nunca pude abraçar você com o corpo todo. O corpo todo abre muitos chacras. E seu corpo não é um território permitido para mim. Nunca será.

Ao abraçarmos, verdadeiramente, estamos expostos. Nos permitimos ser vulneráveis. Uma forma de dizer sim, eu te aceito. O fato deu não poder receber um abraço seu agora é justamente por isso: nunca fui aceito. A gente aprende com o que vive. E a grande questão não é o que nos acontece, e sim o que fazemos com o que nos acontece. O que fica, depois de. Na última vez que nos vimos, não houve o abraço. Eu não merecia?

Tive medo de encontrá-lo na rua um dia desses. Não quis abraçar estranhos bêbados e insanos na carnavalização das ruas. Um amigo disse: será que você está mesmo com MEDO? E o medo da rejeição – esse fantasma maldito, que se alojou no meu coração – me fez ficar mudo. E o amigo riu, cúmplice da minha dor. Um abraço seu teria resolvido?

Dói as costas, dói o coração, dói as imagens que tenho no celular. Dói me sentir culpado, dói me sentir assim, sei que não devo. Talvez chorar aliviasse. A última vez que te abracei molhei seu ombro. Queria ter esquecido essa imagem. Impossível.

Na ausência do seu abraço, da simplicidade desse gesto. Permaneço. Abraçar você é uma possibilidade que não existe, preciso me conter caso esbarre em você um dia desses por ai e meu corpo revele a necessidade do seu. Sei que não podemos. Seria bom poder se aconchegar no meio do seus braços, pois seria como um respiro em toda a ausência e saudade que restou. O abraço mais do que as palavras, exemplifica os pedidos de desculpas, de aceitação, de respeito e carinho, suprimindo, por segundos, tudo o que de ruim ficou.

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