Uma duas – Eliane Brum

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Finalmente o grito preso ali se solta. E ela sente  que nunca mais o grito cessará, que aquele grito é para sempre, é um grito para toda a vida e para além da vida. Porque agora ela alcança a inteireza do horror. E gritos são coisas que não viram palavras, palavras que não podem ser ditas. Não há como escapar da carne da mãe. O útero é para sempre. (p.14)

Você vai ter de se reestrutura para cuidar da mãe, você acha que consegue? Sim, ela consegue. Não, ela não quer. Sim, ela não tem escolha. (p.18)

Quando chega no portão do prédio, tudo parece normal. É isso que sempre assusta no mundo, essa capacidade do inferno de se esconder na luz. (p.21)

É bom quando as pessoas têm um lugar onde não cabem perguntas. (p.22)

E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção. (p.69)

… o corpo não desiste sem algum tipo de escândalo (p.72)

Se sabemos o que esperar, até mesmo a dor pode ser confortadora. E eu descubro que o pior caminho é melhor que o desconhecido. (p.75)

Sinto vontade de chorar por ser um não lugar naquele lugar que cobiço. (p.75)

Prefiro a chuva, que não obriga ninguém a ser feliz. (p.85)

Nunca tive a curiosidade de descobrir se restou a esperança (p.86)

Este desejo de fora sempre me drena. É difícil saber como nomear cada coisa, e uma palavra nova desordena tudo. As palavras não são fáceis, pelo menos para mim. Preciso sempre fechar bem as pernas para que elas não me escapem deixando um vazio que não é silêncio. (p.93)

… as verdades estão entre nós, nesse ar que ambas respiramos, naquilo que não pode ser dito, naquilo que às vezes fizemos para não ter de dizer. (p.109)

Ódio da mãe. Será que a mãe não podia morrer de enfarte, de repente? Sem sangue, sem gemidos, sem fluidos? Sem dias, meses. Dor.

Ela acha que deve tocar a mãe. Mas não pode. Agora, mais do que nunca, não pode tocá-la. Agora que o corpo da mãe se decompõe por dentro, que a degeneração é também da carne, não só da alma. Será que a alma estava tão estragada que contaminou também a carne? Ela pode sentir o cheiro de podre da mãe. Pode. Não, não é imaginação. A mãe fede como tripas ao sol. É isso o que é, afinal, a doença. As vísceras sendo comidas por dentro, o corpo se traindo e devorando a si mesmo. (p.128)

Ela pensa que não vai mais conseguir ver a mãe viva, agora que sabe que está morrendo. (p.130)

Me dou conta de que sempre chega o momento em que não podemos escolher viver, no máximo como morrer. (p.162)

Pela primeira vez eu quero que minha mãe esteja em mim. Não como possessão, compreendo agora. Mas como memória. (p.172)

(Fragmentos retirados do livro de Eliane Brum, “Uma duas”)

 

 

 

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