Tempo de esperas – Pe. Fábio de Melo

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       Creio que sua carta tenha sido escrita em momento de profunda irritação. O rancor escorre pelos cantos de suas palavras. Escreveu com pressa? Não permitiu que as palavras demorassem em você? Creio que sim.
       Mas não se preocupe. Eu também já fui vitima desses rompantes de juventude. Toda vez que alguém se opunha ao meu modo de ser e pensar, eu rapidamente armava minha defesa. Eu não era capaz de dormir sobre o desconforto da refutação. Achava que a reação deveria ser imediata. Estava sorvida pela doce ilusão de que é preciso ter sempre razão. Por isso errei tanto.
       Você sabia que a ira nos cega para a sabedoria? E o pior, faz com que o nosso inimigo prevaleça. A raiva nos retira a capacidade de analisar as palavras que nos desafiam. Manter a calma pode nos ajudar a compreender melhor o porquê do desconforto.
       (…)
       Não saber perder já é uma forma de perder sempre. E perder sempre é um jeito mesquinho de morres antes do tempo. Quem não aprende a lidar com as perdas corre o risco de manter a vida estacionada. Multiplica os desafetos e despeja sobre o mundo todas as insatisfações.
       Glória no fracasso? Existe meu caro. Mas é cedo para que você possa enxergar. Ainda lhe falta uma parte importante do processo. Você ainda não assumiu ter perdido. Seu orgulho não lhe permite. Sua incessante tentativa de encontrar explicações sobre os motivos do amor ter partido funciona como esconderijo. Volto a dizer, o rei está nu. Só que ele insiste em imaginar-se vestido.
      Alfredo, só pode enxergar à glória que há no fracasso aquele que enxergou o fracasso por ele mesmo. O maior medo, o mais vergonhoso de todos os medos é o medo de dizer que se tem medo. Camuflar a insegurança é alimentar a covardia. Não ter coragem de olhar para o próprio fracasso é ser duas vezes fracassado, meu caro.
      Outra coisa. O amor ainda não foi embora. Por isso o sofrimento é tão agudo. Organizar o luto é muito importante para que o tempo inicie o processo da cura. Você não permitiu que o amor partisse, pois insiste em aprisiona-lo nos seus sonhos, nas suas esperanças. Ele está atado a suas costas. Você o transformou num fardo pesado e desajeitado. Por isso você tem tanta dificuldade em prosseguir seu rumo.
       Dessa forma você estende o tempo da dor. Você a transforma em agonia, pois retira dela o caráter redentor que lhe é próprio. Sofrer por sofrer? Não creio que seja um opção inteligente. Você não pode insistir em aprisionar o que não é seu; reter o que não existe mais, o que já se foi, o que já morreu, o que já partiu. Assuma que o amor foi embora. Não distraia sua alma com tantas perguntas. Tranque essa porta de onde você insiste em contemplar a estrada vazia. Depois de morto, o corpo precisa ser sepultado. Mas não é somente a materialidade que precisa de sepulcro. Organizar o luto consiste em reconfigurar a vida a partir da ausência estabelecida.
       Eu já vi muita gente perder o sentido da vida pelas mesmas razões. Pessoas que não admitiram sepultar os seus mortos. Não souberam reconfigurar os sonhos. Ficaram presas aos entulhos do passado e não permitiram que o presente soprasse vento de renovação sobre os destroços.
       Por isso eu insisto. É importante  saber perder, meu querido. A superação da perda só pode ter o seu início quando o perdedor reconhece a derrota.  (…) Comece a admitir isso para que a glória do fracasso não permaneça oculta aos seus olhos. Você é um perdedor. Essa é sua verdade.
      (…) Até quando insistirá em encontrar respostas para as perguntas que você ainda nem foi capaz de se fazer de fato? As perguntas que você me faz ainda são desconhecidas para você mesmo. São ocas. Não sabe o que quer perguntar e, mesmo assim, pergunta. Seja honesto com sua interrogação. Não perca tempo com  as investigações sem propósito e, antes mesmo de querer o alento para sua dor, queira experimentá-la com profundidade. A dor é sua, Não é possível que ela seja infértil!
      (…) Já observou que a nem sempre a lógica do pensamento corresponde à lógica da existência? A vida é muito mais que a teoria que sobre ela estabelecemos. Ela não cabe nos nossos conceitos, mas nos escapa o tempo todo. Escorre pelos dedos, foge de nós. Por isso ficamos contraditórios.
      Ontem mesmo descobri uma contradição instigante que faz parte da minha vida. Argus é um cão que amo muito. É um grande companheiro que tenho em casa. Argus não é um cão bravo que possa me servir como vigia. também não possui pedigree para que possa ser exposto e premiado em concursos de cães. Argus não é bravo, nem belo. Cheguei a conclusão de que Argus é um inútil para mim. Não me serve para nada, e, no entanto, eu não consigo imaginar minha vida sem ele. Há coisas que nos são inúteis, mas mesmo assim nos são indispensáveis. Já pensou nisso?
      Há sempre perigo no amor que tem utilidade. Enquanto o outro exerce alguma função na nossa vida, corremos o risco de não experimentar o amor gratuito. A utilidade pode parecer amor, mas não é. Amor que se fundamenta na utilidade que o outro tem corre o risco de se transformar em abandono num futuro próximo.
       Quando queremos o outro só por causa da utilidade que tem para nós, agimos para satisfazer nossas necessidades. Amamos até o dia em que o outro nos é útil. No dia em que deixa de ser, mandamos embora, dispensamos. Esse é apenas um exemplo de uma contradição que só pode ser resolvida na prática da vida. É possível amara os inúteis? Não teoria não, mas na prática sim.
      Talvez você não esteja muito familiarizado com a linguagem das contradições, afinal você é fascinado pelas respostas. Você anseia ardentemente pelas explicações. Ouso lhe dizer que as contradições são sempre instigantes. Elas sugerem mais do que explicam. O contraditório é a vida pedindo socorro, é a existência clamando por ser interpretada. Mas essa interpretação não é um cânone de respostas prontas. Essa interpretação é feita a partir de respostas que geram novas perguntas. Por isso ela é processual. Ela perpassa por inúmeros caminhos e invade nossa vida inteira. (…) O ser humano precisa de um vínculo de “elã vital”, a força que nos move, que nos conduz e que traz um significado ao cotidiano que nos envolve. Minha relação com o mundo melhorou muito depois que descobri que as contradições fazem parte do meu elã vital.
      (…) por mais que tenhamos respostas prontas, o dilema da existência nunca terá fim. E não pode ter fim. O que nos move é justamente a sua dinâmica. O conflito é o pão nosso de cada dia. O contraditório é a experiência de toda a hora, é o fruto de todo instante, é o companheiro que trazemos no bolso.
      O amor deixou de clarear sua vida. O nome que até então enchia o seu coração agora está coberto de nuvens. Quanta escuridão resolveu morar no nome da pessoa amada? O que antes clareava agora escurece. Que contradição!! Resolva-a… Ponha essa inteligência para funcionar. Reconcilie seus contrários. Deixe que a partida do amor lhe faça chegar em algum lugar de você. Não tema a ausência de respostas. Há um  encanto resguardado neste silêncio, acredite. Descanse um tempo maior neste seu não saber.
      (…) descubra algum realidade que possa lhe servir de elã vital. Qualquer coisa que lhe ofereça vínculo com a vida. Algo que não lhe deixe esmorecer, que lhe empreste sentido, que reacenda o seu desejo de futuro.
      Você dedica amor a alguma realidade que lhe é inútil?
*Fragmentos de um dos capítulos do livro: “Tempos de Esperas – o itinerário de um florescer humano”, escrito por Pe. Fábio de Melo.
* Em vez de colocar o nome da pessoa citada no livro, substitui pela palavra “amor”, para que o texto fizesse sentido de forma geral.
*Crédito foto: Paulo Fuga
fragmento extraído do livro “Tempo de esperas – o itinerário de um florescer humano” – de Pe. Fábio de Melo.
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Uma resposta para Tempo de esperas – Pe. Fábio de Melo

  1. Eneida disse:

    Excelente o livro. Tem uma particularidade. Deve ser lido necessariamente obedecendo a sua sequência. Não adiantar páginas. Final surpreendente. Eneida http://percepcoesreais.blogspot.com.br/, poesias e afins!

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