O menino que lavou o cabelo

Você veio com a roupa do corpo, com o corpo ainda sem culpa - Carpinejar

Você veio com a roupa do corpo, com o corpo ainda sem culpa – Carpinejar

p/Herika

Quando se olharam, se pegaram. Assim, rápido, prático e simples. O cubículo do banheiro conteve aquele fervor causado com o encontro daqueles olhares, aquelas singularidades. Não houve tempo para nomes, telefones, e afins. Afinal em certos dias apenas aplacar o vazio, dar conta da libido e/ou seguir os instintos está de bom tamanho.

Meses depois outro encontro. Nova excitação, não era a primeira vez, mas foi como se fosse. A intimidade borrada da primeira vez, fez com que dessa vez eles trocassem palavras antes, durante e depois da troca de fluidos. Sim, para um deles o gosto da boca é o melhor. O cabelo que pode ser dessarumado.

Um deles namora. O outro quer namorar. Um deles já casou. O outro ficou a mercê. Um deles é passional, debochado, desprendido. O outro é… bem… o outro não sabe o que ele é ainda, a dois. E trocam perfis na rede social, e trocam mensagens pelo celular e trocaram secretamente o desejo de se experimentarem novamente. Simples assim, apenas atendendo aos apelos da carne. Ela tem vida própria, não atende aos comandos do cérebro – às vezes.

Uma festa badalada. Várias possibilidades. Um, estranho no ninho. O outro, um velho conhecido. Se acharam de longe. Se cumprimentaram meio que sem graça. Um queria, o outro talvez tenha sido obrigado. Não se esbarram mais. Um deles se perdeu por ai, o outro nem rastro de onde acabou a noite. Desencontros cotidianos. Apenas?

Porém eles se sentem sozinho na cidade onde moram. Bairros diferentes, esperas e necessidades diferentes. Anseios opostos. Uma saudade entalada na garganta. Ainda havia a necessidade do outro, a curiosidade do outro, a possibilidade de. Um trajeto na madrugada poderia resolver a questão. Sublinhar esperanças. Socorrê-los do peso de serem eles mesmos.

Um encontro on line, uma prévia, um estreitamento…

– Vai para o banho já. Arruma esse cabelo e venha. Eu te espero.

Ambos foram para o banho. Ambos criaram expectativas. Ambos precisavam de algo que nem sabiam o que eram. Mas a novidade do outro talvez aplacasse tanta busca por novidades. Tanto anseio por vir a ser… que eles só precisavam ser. E foram.

Um deles relembrou os três únicos encontros… e lembrou da tatuagem… do cabelo… do gosto da boca… a boca dele nele …ele…

Se acharam na madrugada. Quando a porta foi aberta. Quando o outro despretensiosamente chegou. Quando rolou uma expectativa do que viria a acontecer. Um “e ai?” foi a ponte entre a passagem pelo portão e o beijo. A boca comunicou mais que as palavras. Tão simples o desejo… as vezes.

– Desculpa, o cabelo não ficou bem arrumado. Fiz as pressas, para vir logo.

O cabelo foi o que/’quem’ menos se importou, passou a noite toda e o dia seguinte desalinhado. Resquícios daquele encontro, daquela cisão. Naquele momento o pouco de um era do outro. Não havia concorrentes. Eram eles sozinhos, diante de uma possibilidade. Correndo o risco de se acharem…

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