Zeca e eu

Zeca está morrendo. Nada me tira da cabeça que algo nele resisti, persisti. Imaginar sua alma perturbada a se rebelar me angustia desde que ele foi internado. Sofremos com ele, eu e seus amigos. Zeca está morrendo e o que morre com ele? Ando me perguntando. Não me esqueço de seu semblante entristecido vendo que sua vida podia acabar sem que o amor chegasse. Pois é… ele está perdendo. E nós? Os sobreviventes, estamos ganhando? Me sinto confuso, angustiado e triste. As manifestações de votos de melhoras no seu Facebook torna tudo mais triste. Ele não vai voltar para ler o quanto é querido. Ele sabia disso?

Lembro do pulo que dei da cadeira para abraça-lo quando ele chorava e se expunha num almoço de primos. Fragilizado e espantado com o desenrolar de sua vida, ele se sentia perdido sem saber o que achar. Nós, os primos, também… Soubemos confortá-lo? O compartilhado naquele almoço não sai da minha cabeça. Toda hora entro no seu Facebook – que inferno isso, odeio o Facebook – esperando alguém dizer que tudo mudou, que ele se recuperou, mas não… o telefone toca eu penso que é uma noticia dele, mas não… eu saio e me jogo no olho do furacão, tentando viver um pouco e esquecer essa angústia que toma meu peito e parece querer me sufocar. Deveria me cuidar, mas não…

Me senti ultrajado quando ele disse que todas as suas relações – sejam casuais ou não – foram tentativas frustradas de encontrar o amor. Meu Deus, será que todo mundo é assim: um reles ser humano fragilizado a espera que o outro dê conforto, segurança e certezas? Meu primo morre desassistido de amor, meu melhor amigo morreu sem passar nem perto dessa alquimia a dois. Quero ser poupado de morrer assim, a quem devo pedir?

Seu peito foi recheado de fungos, o impossibilitando de respirar. Sem oxigenação seu corpo não responde mais. Seu espaço físico não responde mais. Mas e sua alma? Há quantas anda? Fico pensando em como recuperar sua risada estrondosa, de como reter a energia que vibrava dela, mas sou incapaz, minha memória me trai. Que merda.

Não me lembro quando ficamos íntimos. Em que momento começamos a trocar sorrisos cumplices em reuniões cafonas de família. Não me lembro se eu disse a ele que ele podia confiar em mim, não precisou, ele sempre gostou de mim assim, de graça. Sem que eu devolvesse toda a gentileza e generosidade que ele me ofertava. Como que procurando um cúmplice. Família serve para isso né: para sermos achado entre estranhos conhecidos. Também como o Zeca tive desavenças com familiares que não nos entenderam e nos deturparam, afinal família serve para isso né: te afundar, as vezes.

Quando pisei a primeira vez em Salvador, lembrei que era de lá a paixão arrebatadora do Zeca. Também tive uma meu caro, devo ter dividido alguma coisa com você, mas nem me lembro o quê. Também como o Zeca quis ficar por lá, sobrevivendo de amor e sol e esperança. Não foi possível. Em que momento soubemos que a vida seria assim: desaconselhável para quem espera o amor, um dia.

Recentemente visitei assustado um amigo acometido com a mesma pneumonia que paralisou o Zeca. Dormi ao redor dele, porque nossos medos nos toma em momentos indesejados. E eis que no outro dia, ele já estava caçando novas oportunidades de “amorsexopaixãoseduçãoilusão” via celular. Aquilo me entristeceu profundamente, primeiro porque ele não era capaz de enxergar um palmo a sua frente, segundo por essa necessidade burra e escapista de procurar a solução em quem nem conhecemos direito. Meu amigo, ainda caça seus “príncipes” por ai, o Zeca não mais, o Marcus também não, eu também não quero…. não quero morrer assim, sofrido, a espera de um amor que não chega, que não virá, que talvez não exista no meu dia a dia. Quanto medo sinto dessa perturbação emocional…

Zeca está inchando num hospital, seu rim não reage mais, seu corpo está sendo tomado pela infecção. E eu me pergunto: quais as que carrego? Até quando estarei livre dessa manipulação do corpo sobre nossos sentimentos desfavorecidos. Estamos assim a mercê. Triste. Essa luta por viver e acreditar e esperar e querer e procurar e simular e se entregar e se envolver me parece inglória hoje, ontem… desde que o vi chorando feito uma criança sonhadora, que esqueceu de crescer e desacreditar no amor. Esse amor insano que nos faz se entregar a qualquer estranho aparentemente adorável. No fundo somos cegos, na pele, no olhar, nos sentimentos. Não enxergamos com clareza nada. Somos míopes perante nossas certezas. Eu deveria andar sem óculos, talvez me enxergasse mais, fossee mais forte, sem a suposta certeza que a visão traz.

Protelei esse post pois queria poder saber o que dizer. Ainda não sei. Meu blog e minhas peças falam de ausências e me sinto arrasado pela ausência que meu primo carrega num peito cheio de fungos. Pela ausência que a dura realidade de sua vida e sua rotina e sua história deixará na minha memória.

Zeca ressoará durante muito tempo dentro de mim. Sua história torna meu dia a dia mais pesado, pois não se pode ser tão inocente, não depois que se passa dos 35. Não quando se percebe que a solidão é fato e contra fatos não há argumentos. E na dúvida de continuar a lutar contra ela, o melhor é conviver com ela, simples assim.

Não tenho coragem de ir ver meu primo, ele não está acordado, ninguém sabe aonde vai parar a pessoa inconsciente. Nosso último encontro é tão vivo e impactante dentro de mim que ….

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