e por falar em saudades…

Somos animais saudosos ou, como dizia Cecilia Meirelles: “a vida é uma constante saudade”

(…) a saudade é apenas saudade de mim projetada em fatos passados e em lembranças periodicamente modificadas pelo presente.

Não podemos fugir do fato de que cada um é o centro de sua saudade e esta nada mais é do que a narração de pedaços de vida. Cada um tem saudade a partir de sua própria história, de sua história real ou imaginada.

Outra variação da saudade é a que se manifesta como solidão radical, ou seja, a saudade daqueles que parecem não ter histórias para contar e delas sentir vontade de afetiva recordação.

(…)
No fundo, a saudade tem a ver com tudo o que vivemos e inventamos para ocupar a solidão de nossos dias, para além das ocupações e preocupações ordinárias.

Assim, falar de memória e imaginação, quando o assunto é a saudade, é simplesmente mostrar que a saudade refere-se a algo vivido e de certa forma gravado seletivamente na memória e a algo inventado ou modificado em relação àquilo que foi vivido no passado. E a cada expressão ou a cada nova partilha de nossas saudades parece que aprimoramos mais os pontos que, por diferentes razões, nos fazem bem ressaltar. É como se nos inventássemos a cada narrativa.

Como disse Manoel de Barros, “Tudo o que não invento é falso”. No momento em que a saudade é vivida como sentimento saudoso, como recordação afetiva de algo ou de alguém, esta se mistura à imaginação e transforma-se por meio de mil e um desdobramentos e condicionamentos provindos da realidade pessoal dos saudosos. Lembrar, imaginar, esquecer, selecionar acontecimentos, arrumá-los sempre de novo na memória entram no complexo da saudade.

(…) a imaginação ajuda a memória na narração do passado e a memória, por seus inevitáveis vazios, torna-se base para a irrupção contínua da imaginação.

(…) Não percebemos que o objeto saudoso se mistura ao desejo do presente, fala dele contando o passado e, o atualiza e o atualiza de certa maneira numa multiplicidade de nuances e combinações. Talvez haja um núcleo ou um ponto nevrálgico que, de fato, seja o mesmo, mas o que se percebe são os muitos bordados em torno de um acontecimento.

(…) a capacidade da saudade de provocar dores mortais. Ao mesmo tempo em que se reconhece sua beleza como sinal de uma dádiva do passado prolongada no presente, se reconhece sua força emocional destrutiva, Afirma-se, dessa forma, o caráter ambivalente e paradoxal da saudade.

Por isso se pode até dizer que a saudade não tem uma razão ou muitas razões, não tem uma ou muitas causas. Ela apenas é em nós. Somos saudades de tornamo-nos saudade. Reconhecemo-nos como saudosos ou como aspirantes à saudade. A saudade é nossa memória, nossa imaginação, nossa história, nossa arte, nossa religião, parte de nossa ciência e, finalmente, nosso próprio corpo.

(…) saudade de algo sem saber do quê. Saudade como um vazio necessitado de preenchimento, embora tenha de continuar sempre vazio. Saudade se abre como um oco em nossa existência, ou como uma espécie de abismo que nos habita, proveniente ao mesmo tempo de nós mesmos e de algo fora de nós.

(…) A extrema ligação ao passado pode tornar-se uma forma de escravidão ou ao menos uma submissão imaginária ao que já não é mais. Numa entrevista a revista Bravo, a atriz Fernanda Montenegro afirma:

(…) prezo tudo o que realizei, mas o passado é o passado. Terminou. Não pretendo me entregar às divagações do tipi “Ah, meu verdes vales” (…) e me pergunto, à semelhança de Simone de Beauvoir: “que espaço o passado reserva para minha liberdade hoje?

(…) Não há uma lógica precisa, uma teoria cognitiva que explique com precisão porque fisgamos algumas coisas e nos esquecemos de outras. Não sabemos porque somos capazes de tecer rendas em torno de alguns pontos e deixar outros no sotão do esquecimento. A saudade simplesmente é em nós.

Trechos retirados do livro: Saudade – Ivone Gebara

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