Aquela terça-feira

O bar era o mesmo, a bebida idem, vodka com energético. Em doses duplas para não amargar ainda mais a boca, que eu ainda salivava restos alheios. As músicas acrescentavam velhas lembranças “praquele” ambiente, onde todos riam, bebiam, fumavam e dublavam a música. Tudo forjado. O riso, a fumaça, o gole suave, a música repetida há anos.

Disse oi para o primeiro, um caso passageiro. Nem lembrava detalhes, apenas que havia sido assim, curto e grosso, como uma fome que saciamos, sem meio termo. O segundo não tardou a falhar e apareceu para mostra-lhe o quão volúvel andava ultimamente. Fotográfo, viajado, usado, gasto, solado, pensava enquanto observava o homem que havia forjado tão bem, climas, olhares, odores, sons, para depois deixá-lo.

A pouco menos de 100 metros um homem, embriagado – de bebida ou de dor? – não importa, o observava, ou seria o quadro da Bette Davis atrás dele. Pensou. Se quiser me beijar ele que venha até aqui. Nem se assustou por não ter pudores em revelar que estava disponível, aberto para.

Começou a ficar sério. O bar-a-vodka-o-energetico-aquela-terça-feira, estava diferente, não havia tantas facilidades assim. Outrora houvera, hoje não. A conta do bar reaberta, uma mudança no bar, de posição. Nada como uma nova forma de olhar, de se expor, de procurar. Quem seria o terceiro? Porque ele não aparecia e vingava a noite, os 100 contos deixados no bar, o amigo que o deixará ali, a procura de possibilidades.

O 1°, 2°, 3°, os…

Mas tudo bem, isso só ocorria às terças-feiras. Não aos sábados onde a dor supostamente seria maior. Terças-feiras que lhe davam as quartas-feiras de longos sonos, sem sonhos. Vagos espaços com toques de azuis, assim como seu coração, a fumaça do seu cigarro, o carboidrato que não comera.

E se engordasse pensou enquanto obrigava o fígado a trabalhar. E se engordasse…? Seria mais atraente, mais comum, mais aproximável. E se engordasse a carteira, o quarto, os dias, os sonhos, os desejos, as ambições. Seria mais atraente? Seria durável? Seria de alguém?

O mesmo sorriso “amarelo pedindo help”, a mesma droga ursupadora da realidade, as mesmas frases pipocando no seu cérebro. Num impulso pensa em roer as unhas, mas prefere não, e se alguém se apaixonasse por elas? Pelos seus dedos curtos e brancos, pelas suas unhas lixadas para não ferir, para não afastar ainda mais o suposto sim. Que um dia viria.

Quem sabe ali naquele bar, quem sabe numa terça-feira, quem sabe no verão. Quem sabe em São Paulo. Quem sabe em forma de amigo. Quem sabe camuflado de “nãos”. Quem sabe?

No bolso apenas a chave, o $ do táxi.

A porta do bar, a porta do carro, a porta da casa, a porta do quarto.

No teto branco apenas uma mariposa esmagada há anos por um chinelo alheio. Ele o conservava ali, seca, como um amuleto, um troféu, a certeza de um outro, um dia. Nem que fosse para matar a mariposa que ele vagarosamente observa agora, como uma única opção. Ela no teto. Ele no colchão. Ela fria. Ele quente. Ela seca. Ele… um pouco. Enrolado em lençóis que exalavam um cheiro diferente.

Embriagado de vodkanãoodorescigarroslembranças adormecia, assim de lado, como que a espera que alguém chegasse e ao acolhesse, se encaixasse nele, se completasse a ele.

(escrito em 18/02/96 – Livremente inspirado em Eduardo Valverde)

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