Divagações sobre a paixão alheia

(o e-mail abaixo foi enviado para três amigas em Abril. Como a paixão, os sentimentos do coração e a busca do amor são recorrentes nas minhas peças, creio que tem tudo a ver com o tema do blog.) 

As meninas, igual as mulheres, sonham com inocência, solidão e amor. Convertidas em matéria de sonhos, descobrem as sutilezas do mundo, as asperezas da sorte, os abismos do destino”  – Raimundo Carrero

Tenho três amigas que estão apaixonadas. Enebriadas e embriagadas pela possibilidade de um homem que a principio não as querem. Recorrem a mim como se eu tivesse uma resposta acalentadora. Não, não as tenho. Queria dizer a elas que também falhei nessa busca. Que também nunca soube como agir e que não há uma receita. Portanto cada uma tem que ser corajosa e encarar de frente os obstáculos e nos três casos eles parecem muros – a primeira impressão – intrasponiveis.

A primeira se apaixonou perdidamente pelo amigo. Paixão regada a sexo, ciúmes e bebedeiras, como manda a cartilha do bom roteiro cinematográfico. Uma daquelas histórias que vemos em filmes, achamos o máximo, empolgante, mas que não gostaríamos de viver na pele. Traz muita aflição, ansiedade e como boa paixão que é, dói, até querermos gritar nossa dor, dissolvidas nas lágrimas que derramamos.

A segunda se apaixonou pelo ex-aluno. Ignorado de primeira mão, foi ganhando proporções inimagináveis. A típica paquera on-line, com direito a frases via Orkut, papos no MSN, vídeos com mensagens cifradas. Nada mais contemporâneo. Uma noite intensa e quente bastou para que o garoto fugisse na calada da noite. Talvez com medo. Talvez assustado. Talvez não tenha gostado tanto. Não sabemos. A amiga teve a ingrata surpresa de amanhecer só. Com a realidade obrigando ela a desvalidar o que havia ocorrido na madrugada.

A terceira caiu na roubada de se apaixonar pelo chefe. Uma atenção mais especial, um olhar afetuoso, uma conversa bacana e uma sensação de conforto fizeram com que a amiga caísse no encantamento da paixão não correspondida. A princípio, veja bem. Não consegue dissociar uma coisa da outra, não há chefe, não há amigo, não há colega de trabalho, há apenas uma possibilidade.

O problema todo é saber como se maltrata uma lembrança” – Raimundo Carrero

Já me apaixonei, acho. Embora sempre uma nova paixão venha nos mostrar que não. Não sabemos nada a respeito dela e é pretensão sairmos falando que sabemos algo. Somos frágeis. Já chorei e quis gritar de dor, quando o outro foi embora, quando outros puseram a mão no que “supunha meu”, e achei que ia morrer de paixão. Ah… sempre é bom uma cena. E adoro, adoramos elas. Mas restar só não é nada agradável e nem recomendável. Queria dizer para minha amiga que não há nada a ser feito, não por mim, ou por outras pessoas que torcem por ela. Que ela tem que aceitar que determinadas coisas não são como gostaríamos e que paixão só vale à pena se for a dois, só, nunca. O olhar desesperado da amiga não acalma a mim que ouve, me aflinge. Como ajuda-lá sem deixá-lá pior? Não sei. Não estou sabendo.

Já fui largado na madrugada, pela manhã, no meio da tarde, num banheiro público, num puteiro, numa praça, depois de uma trepada que me fez perder a razão, mas quando me defrontei com a realidade tive que continuar caminhando e sem olhar para trás. Não havia o que olhar, tudo tinha se dissipado, assim como minha imaginação fértil. Afinal sexo é na cabeça, você não consegue nunca. Entendo a dor de ter restado só. Não consigo formular nenhum antídoto para tal situação. Talvez o mais cruel de todos. É assim é pronto. O olhar resignado da amiga, me diz: não fale. Eu sei, mas me deixa acreditar que é possível? Sim, eu deixo.

Já me encantei por chefes, por quem me protegeu, já confundi afeto com solidariedade, carinho com afeição, carências com necessidade. Já imaginei tal mão em mim, meu corpo em tais pernas, que o outro deixaria sua vida e viria correndo para mim, por que EU era melhor, valia a pena e merecia viver tal sentimento. Já me imaginei sendo protegido publicamente, andando no carro que não era meu, abraçando um corpo que parecia que me defenderia dos outros, mas isso não queria dizer que poderia me proteger dele mesmo ou até de mim. O olhar carente da amiga revela mais do que ela consegue raciocinar. É um longo caminho para dentro de si mesma. Para suas necessidades, para suas solidões, para sua carência latente e pungente. Seu olhar me diz: me puxa, me salva, clareia minha mente,afaga meu coração. Me abraça.

A felicidade é cínica”- Raimundo Carrero

Não sei o que responder para nenhuma das três. Queria ajudá-las, mas falhei também, assim como talvez elas falhem. Somos humanos, carentes, incompreenseiveis e solitários. Torço pelo sim delas, para que elas sejam acalentadas na madrugada, que a mão que parece oprimi-las talvez ajude. Que o fatídico NÃO se dilua num talvez, num sim.

Mas o que penso em comum é que jogar no outro a obrigação de matar nossas carências é sempre um ato impensado. Sempre me pergunto por quê? Pra quê? O que tenho que aprender com isso? Pra que tal momento me serve? Porque ajo de tal forma? Olhar para si mesma talvez seja o principio de uma nova história. Ambas estão esquecendo de investigarem as causas dessa paixão desenfreada, e se já o fizeram recusam a resposta que sua intuição recomenda. Falta amor próprio? Falta clã reza de idéias? Ou elas são mais fortes do que suponho e estão apenas lutando? Tentando, ao seu modo.

Obviamente que se não doesse tanto gostaria de ver as cenas de amor desenfreado das três, seja na praia, no trabalho, na rua em que moram. Queria poder dizer: vai pelo caminho da esquerda, que no da direita tem lobo mal e solidão medonha.

Todos os “vilões” dessa história são mais novos, jovens, pretensiosos – como manda a cartilha da juventude. O primeiro é arisco, voluptuoso, sem freios para o sexo, para as amizades e para o dinheiro, intenso e inconseqüente. O segundo é educado, inteligente, sedutor, artista, sensível, mas ambíguo, cruel, volúvel como todo o jovem que se sabe interessante. O terceiro é o típico bom moço, o tipo “de família”, inexperiente, engomadinho, se acha muito experiente, muito sagaz, que tem todas as respostas, desconhece que a vida nunca afirma nada e dá rasteiras quase sempre. Todos eles jovens, cheios de hormônios, testando seus próprios limites, seduzindo, se descobrindo no outro, negando a sim mesmo o que não lhe agradam, como é típico da nossa imaturidade e insegurança.

Será que me enganei tanto na impressão desses lobos? Engraçado, cada um tem um diferencial. Assim como as amigas e suas particularidades.

 “Algumas coisas acabam outras simplesmente param” – Daniel Maclvor

Não sei o que quiser com tudo o que escrevi. Mas pensei nas três ao escrever isso, talvez o que foi dito pensando numa sirva, para outra. Talvez uma reconheça no outro o lobo que não é tão mal, ou que é muito mais mal que imaginava. Talvez percebam que todas estão tentando é que a sua dor não é maior, menor, igual, pior ou mais urgente que a dor do outro. É apenas a dor que lhe cabe, o desafio que precisam enfrentar, a faxina a interna que precisam fazer. Espero que todas perdoem o amigo, caso ele tenha se antecipado em opinar num final mais dolorido que o presente. Foi só a necessidade de expressar o que anda vendo, o que seu olhar míope permite captar.

Mais assim como elas, e apesar de tudo, o amigo continua pensando sim, dizendo sim, querendo sins.

Com amor.

Rodolfo Lima

No amor morre-se em segredo, numa hemorragia interna, sem ferimento a pôr as pessoas em desespero ao seu redor, tentando socorrê-lo (…) seria sorte se apenas os cotovelos doessem – é todo o corpo. Toda a ausência do corpo dele (…) Esperava que a vida conspirasse a favor, que ainda voltariam. Não fez nada para que acontecesse o retorno, mas esperava que o tempo parasse para pensar e facilitasse a reconciliação (…) Alheio à verdade (a verdade pouco importa diante do coração)(…) Chorará a impossibilidade de ser honesto (…) vivemos para pagar tudo que imaginamos em silêncio (…) Acredito no seu talento de me negar, porém faltará força para negá-lo. Para evitar o milagre de multiplicar a sua ausência. –  Fabricio Carpinejar

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