o dia que (não)amanheceu dentro de mim

"O tempo não cura tudo. Mas afasta o incurável do ponto central" - Hebert Marcuse

Hoje vi o dia nascer. Não foi romântico, alegre ou novidade. Estava aflito e fui para frente do mar, para ter uma noção exata do que se passa. Não, não há certezas. Eu que sempre sonhei com estabilidade vivo instável. Seja com as relações finaceiras, seja com a possibilidade de um outro. Seja com as escolhas que tento fazer, na tola esperança de acertar. Nossas tentativas inúteis, mas tão sinceras, de acertar, de fazer as coisas do melhor jeito. (Réquiem…)
  
Fui meu alceu, meio Alice, meio o personagem de “Todas horas do fim”, pensei na minha mãe, meu sobrinho, amigos distantes, as pessoas que me rodeiam em Salvador e confesso que queria que o azul do céu fosse uma grande cortina e eu terminasse a “história” ali mesmo, sem direito a flashbacks ou cenas repetitas. E nem precisava de aplausos. Minha vida não é exemplo para ninguém. Igual ao personagem de Jim Carrey em “O Show de Truman”. Não, a cortina-azul-céu não se abriu, não, não era uma farsa o que vivo. É latente, ambiguo, complexo, assim como a vida, o outro, as possibilidades.
 
Dentro de mim um “não-lugar”, um desencontro ou um grande encontro comigo mesmo? Eis a questão. Dúvida cruel em dias que o dia fica nublado em Salvador, acinzentando meu olhar, minhas expectativas. Não, o dia amanheceu e dentro de mim tudo ficou cinza, azul borrado de sujo. Um azul incompreensível.  
 
” A destruição  é muito mais interessante que a construção, pois as pessoas só percebem as coisas quando não existem mais” – Sejun Suzuki (Cineasta Japonês)
 
As cortinas não se abriram; Deus não estendeu sua mão; minha mãe está longe e tenho medo de que ela morra e eu não aproveite mais dos beneficios de se ter uma; Medo de fazer uma escolha errada; Medo de acertar e nunca mais ser o mesmo. Medo de não voltar para casa, nunca mais, mesmo que volte a São Paulo, para não mais retornar ao meu quarto. Quando minha mãe morrer restará alguém?
 
Os dois/ três amigos baianos que conheço não são suficientes para me tornar mais calmo, menos aflito. A estrada é só, e cada um está tentando a sua maneira, remando do seu jeito. E eles em atingem de formas diferentes, me inquietam, me incomodam, e eu não sei o que fazer com isso, a não ser viver esse incômodo.
 
 
Um não para um emprego; Um não para uma possibilidade de afeto-colo-troca; Um sim para o teatro, minha saúde, meu olhar.
 
Fico pensando em como fazer morada dentro de mim. Ontem revi pela décima vez “O Céu de Suely” um filme brasileiro que aborda de forma poética e cruel um rito de passagem. Da quebra da ilusão, das expectativas, para cair de cara no mundo real, sem conforto, abraço quente, linguas mornas. Não, a personagem do filme não foi feliz. Não, Seu Alceu também não. Quer ser mais instável que um homossexual? Alice vai trepar com muitos caras e voltará só. Porque assim é que é.
 
Cabeça pesada, silêncio ensurdecedor, uma pessoa, apenas. Fálivel e carente.
 
Como arrastar o dia de hoje?
Como me livrar dessa agonia no peito?
Essa desesperança.
Como não se apegar?
Como lidar com o “não” do outro?
Com o nosso “não lugar”.

Ai eu começo a pensar. Eu penso muito. Meu limite é grande mais eu tô cansada. Tô muito cansada (Réquiem...)

 
Ai eu começo a pensar. Eu penso muito. Meu limite é grande mais eu tô cansada. Tô muito cansada (Réquiem…)
 
Hoje lembrei que vai fazer dois anos que meu melhor amigo morreu – ele vai merecer um post na data. Hoje as expectativas foram forjadas. Hoje resto mais só. Queria poder chorar fininho igual chuva-chata, até me esvair. Evaporar.
 
obs: as fotos deste post da peça “Réquiem para um rapaz triste” são creditadas a Pedro Ivo
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Uma resposta para o dia que (não)amanheceu dentro de mim

  1. “Queria poder chorar fininho igual chuva-chata, até me esvair. Evaporar.”

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