Ivania Davi

Ivania e Cleber D'nuncio (um dos amigos do Réquiem...)

Embora meus trabalhos sejam monólogos e eu siga praticamente sozinho depois que eles estréiam, algumas pessoas tiveram importância relevantes no trabalho, não só pela presença funcional, mas por toda a trajetória. Uma delas é Ivania Davi, a diretora do “Réquiem para um rapaz triste”. Uma das minhas primeiras amigas que o teatro me trouxe e que permanece até hoje – ora mais presente, ora mais ausente, ora mais distante. Mas sempre por ai.

Lembro que a primeira vez que cogitei que ela me dirigisse estávamos num ônibus e eu lendo para ela trechos do Caio. Completamente embevecido, como manda a cartilha do bom fã. Ela foi uma escolha natural, pois além de ser minha amiga, era a única que toparia me ajudar, me ensaiar e entenderia minhas questões. E assim o foi.

Claro que em 13/14 anos de amizade e 7/8 anos de “Réquiem…” muitas coisas aconteceram. Egos foram (re)trabalhados, mãos estendidas, generosidades escancaradas, risadas, irritações e muito companheirismo. Sim, somos diferentes e isso de certa forma nos unia e fazia com que tivéssemos os atritos contornáveis. Nunca um definitivo.

Ivania foi peça fundamental na composição da Alice, pois foi me norteando: uma mulher não senta assim; cruze a perna assim-assado; isso é Rodolfo, joga fora, não serve; e mesmo quando eu chorava no meio do ensaio, ela complacentemente esperava que eu separasse realidade de ficção para podermos prosseguir nessa constante que é atuar.

“Saudades dos nossos exercícios. Dos laboratórios. Das marcações do tipo: você esqueceu a fala. Cadê o sentimento. Relaxa o ombro…” (Bicha Oca)

Criteriosa, não permitiria/permitiu que eu levasse o trabalho sem alguns detalhes, sem a marcação combinada, sem o ambiente propício. Faço de teimoso. E ela mais uma vez percebeu minhas escolhas, minha indisciplina desmedida, meu jeito arriscado de arriscar, certo relaxo, talvez ela dissesse.

Ela não veio a Salvador, não foi a São Jose do Rio Preto, e só foi a Curitiba pois pagou do próprio bolso. A produção sempre foi sem o menor recurso. O único luxo que tivemos uma vez foi o conforto de irmos a Campinas com tudo pago, carro na porta, quartos de hotéis, Buffet, casa lotada, passeio no campo. Lembro de uma cena de nós dois de pé numa caminhonete com o vento a bater no seu rosto toda a sua fúria e pressa, enquanto riamos da oportunidade de gozar daquele momento.

Ivania demorou anos para elogiar o trabalho. Esperou – ou desistiu – pacientemente que eu aprendesse no dia-a-dia, com uma por uma das apresentações, a fumar, a ter uma dicção correta, a ser mais debochado e quebrar o clima sofrido da peça, a ter jogo de cintura para poder driblar o contato com a platéia.

Agora aqui, já sonhei com ela, já imaginei ela me dando bronca por coisas que provavelmente ela não permitiria, já vi ela sorrindo de lado,  a cada nova sacada, que consigo mesmo quando o espaço é errado e o público não participa.

No video abaixo, o cantor (Adriano Doval) é super fã do trabalho dela – que aparece como atriz e narra o poema do começo, adora o “Réquiem…” e trás de tabela o ator Herbert Didone  – outro parceiro – numa singela participação.

Saudades sempre.

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Uma resposta para Ivania Davi

  1. Telma disse:

    Chorei de saudade, alegria e de lembrar de o quanto eu sonhava através dos sonhos de atriz da Ivania David. Tudo tão verdadeiro. A amo mesmo longe…Sempre me lembro da risada, dos cabelos que tem um cheiro tão característico. Do olhar, aquele olhar!
    Lindo Ro.

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